Poesia

Antiquário

Durante quase todo o nascer do sol
Estive na biblioteca antiga.
Quando saí, os meus olhos foram chamados por uma luz sem movimento.
Numa montra estava um aquário de ouro.

A luz do sol brilhava menos que o dourado florescente
Que fazia o contorno dos retângulos de vidro.
O seu interior era a alma de um santuário.

Era um antiquário.

Observo o antiquário
Ou como posso dizer, o infinito.

Na imagem da janela da minha alma,
Liguei-me a alguns elementos,
Estampas ocorridas de hiperligação.

Um vaso grego antigo; uma antiga máquina de escrever.
Do meu ponto de vista aparece,
Sem segundas
Ou terceiras aproximações
As simples imagens desses objetos do passado.
É a imagem da superfície de tudo o que está depois do vidro
E tudo é assim no mundo.
O resultado visto de longe,
Só do meu ângulo
O de um humano…

Resultado de uma grande operação matemática…

Mesmo o que não é um algo ou que não tem superfície,
Além-é algo.
Como Aquiles e Ájax,
Que há tanto tempo continuam neste vaso grego antigo…

Assim como afastado se respeita e contempla uma obra, assim tudo vemos
Não é todo o panorama,
Nem é essa a melhor vista,
Nem é a melhor vista…
Mas é um olhar extraordinário…

Dentro desta loja
– Ou outra loja qualquer, ou noutro sítio qualquer do que for –
Existem conjuntos de nova expressão,
Espaços abstratos além do físico.
Para quem o quer além ver…

– E para endoidecer por espanto –
Eu fiquei perplexa, e nunca deixei de estar…

Dentro desta loja está um telescópio de prata,
Preservado e elegante.

Assente num expositor mais elevado que os outros,
Fitando a janela que aponta para as montanhas que estão entre o céu e o bosque perdido.
A luz do sol fá-lo ficar reluzente
Quase com luz própria
Uma nívea de limites azuis que saem de si como vestígios de clarão aberto para o mundo
Um pouco mais e era cristalino.

O relógio Omega da vitrine susteve a respiração do tempo de todo o antiquário
Quando o dono da loja falou:
“Se espreitar, nunca sabe o que pode encontrar.
Mas se não quiser, tenho aqui este céu cheio de estrelas.
Ou se preferir esta ilustração da luz zodiacal”.

As minhas mãos ajustaram os limites do
telescópio,
Visão-visão, e a lente sem nitidez,
Olhei-o por dentro, assim como ele fez comigo

– Certamente ele também olhou para o meu interior
Quando a minha visão perfurou o caminho de escuridão até ao destino do que iria ver, percebi…
A rua existe com multidão em fragmento
Em cada excerto um novo mundo, um novo campo
E dentro das pessoas, estão ainda outras pessoas
Seja isso secreto, seja por nascer, ou alguém após ter morrido
Quer tenha em si outro espírito refletido.

E os passeios, ampliados de perto,
São montanhas altíssimas
Para seres de menor estatura.

Os passeios contém pedaços das casas de quem já os pisou.
E o rasto dos caminhos feitos a pé por quem lá cruzou.
As estradas têm pedras do outro lado do mundo…

E a escala é uma mentira, um engano da vida…
Mas tudo tão bem feito, tudo tão…
Além bem feito…
E o telescópio deixa assim de me olhar por dentro,
Porque tal como eu, está em equívoco.
Se é ele o telescópio
Ou se sou eu…

Por: Ana Cláudia Santos (Escritora e Autora do livro “Meia-Vida”)

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