Novela

O Artista da Mascara – Capítulo I

“Lisboa”

Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2022

Voltas ao vento. Voltas vou vendo para onde vou.
Atento, lá tento, saber quem sou.
Invento um movimento, no momento movi lento. Finto uma serpente como uma serpente. Sinto-me dormente, durmo pouco tempo. Quatorze de Fevereiro, Valentim sangrento. Perdi-me no nevoeiro, marinheiro ao desalento. Procuro energia, bateria a cem por cento. Escravo da ventania, na Fantasia me desacorrento.

O tic tac do relógio que não pára e que causa o choque quando na hora se repara. Páro na praceta, peço um abatanado. Penso em tanta treta como na Julieta ao meu lado. Ajo como um robô, desde que ela me roubou o coração por uma emoção que me nublou. A sedução na equação. Erro de sintaxe.

Helicóptero. A hélice não pára. Rodopia, todo o dia, por uma utopia cara. As ideias são tantas numa vida que é só uma.
Vou andando de sul a norte, vou voando em teleporte. Com ou sem sorte, tento ser forte. Tento ser, vou sendo. Descobrindo enquanto cobrindo à qual brindo. Vou descendo, vou subindo. Aparecendo e sumindo.Vou indo, vou vendo, que lindo. Uma coisa é como te chamas, outra é como te chamam, disse-me o Felizardo. Como lhe chamaram não interessa. Há sabedoria por toda a parte. Assim
como a vida que, com teimosia, a procuram em Marte. O melhor vem quando nada se tem. Nada tenho além de perguntas, procuro pelo escuro as luzes. Há sabedoria por toda a parte. Quero aprender a viver.

Com amor,
O Louco

O artista mascarado andava sempre como um autêntico fantasma pelas ruas. Só parava quando necessitava, dentre as demais frentes que combatia, o tempo era a principal. Sempre em movimento, sempre atento. Sempre a olhar ao redor, apenas com os sentidos, procurando evitar os inimigos que o procuravam. 

Era, nesta altura, já considerado um Inimigo Público. Não no sentido criminal, respeitava a lei e fazia dela recurso. Contudo, recusava-se a ser mais uma marioneta, mais um instrumento de manipulação para aqueles que ditavam os trâmites sociais a partir das sombras. Por efeito, tornara-se numa presa para a imprensa, que facilmente fazia do herói um vilão a abater.

Calmo e discreto, contrariava a sua norma sempre que algo o incomodava. Na sua postura recente, revelava-se explosivo, chamativo, porque cada vez mais o seu espírito se inquietava com a falsidade de uma sociedade velada pelas máscaras. 

A máscara era a sua mestria e o mistério a sua sina. 

Estava no Topo ainda antes da meia-noite. No topo. Feito louco, ficou desfeito por tão pouco. Tão louco gritou, tão rouco. Sofreu um soco, e um sufoco, mas a brasa era brisa muito antes do inverno. E a brisa era linda como a capa de um caderno.

Domingo, 20 de Fevereiro de 2022

Vou lançar,
Vou lançar-me
Para largar-me
Do cansar.
Para alagar
O meu pensar.
Sempre a pensar
No compassar
Sempre a apressar
Quando a passar
Pela Ribeira, para o mar, para a Ericeira a remar. Correntes dos ventos, correntes em lentes, correntes lamentos.

Em Martim Moniz, numa noite serena. Uma noite feliz, de temperatura amena. Parado na rua, passou por si o eléctrico.
Número vinte e oito, em direcção à Estrela. Parado na rua, corriam na mente os seus pensamentos, ritmados pelos ventos da sua vida. Ventania de uma via vendida, subia com a sua magia, deixara de ser a bela adormecida. Classe rara, desaparecia com um ar rude, mas enigmático como o cheiro da maresia. Automático o acto se esquecia. Pensamento estático numa preocupação que lhe precipitava o coração.
Tinha encontro marcado com os caminhos por procurar: 

-Olha, desculpa, por acaso és actriz?
-Por acaso sou, Bi-atriz.

Ao Topo!
Disse o louco,
Mais um copo.
Rouco,
Disse pouco
Mas foi forte:

Balas abalam-me a mente,
Falas e escalas a quente.

CONTINUA…

Por: Isaac Jaló (Escritor e autor das obras “Alma Perdida” e “Islâmicos 14:38“)

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