Conto

A Casa Vazia

A porta foi aberta na crua certeza da continuidade da vida. O tic-tac do relógio invisível  a martelar o ouvido, marcando o compasso do misto de sentimentos que embala em dias alvos ou em noites de chuva. E pela fresta da claridade causada pela porta entreaberta, o sol entrou  iluminando uma faixa de pó dançante pelo ar.

Os passos fizeram eco, enchendo uma casa vazia. Nas paredes havia a passagem do  tempo. Os buracos onde outrora estiveram pendurados quadros e fotografias. As paredes  rugosas e estéreis, pedindo cor. E os olhos encheram-se de lágrimas, com um coração retumbante e vivido em contraste com a falta de sangue quente da casa. Mas, apesar de estar  vazia, ela ainda pulsava de vida. Os gritos misturados com os risos, as vozes ao longe, tão longe,  como uma miragem ou como um sonho.

Suspirou, passando os dedos pelas paredes e sentindo o frio. Lá dentro, não se podia  precisar se era Verão ou Inverno, se estava frio ou calor, se era dia ou noite. Porque ali, dentro da casa vazia, o presente chamava o passado e ambos enleavam-se sem se preocuparem com o  futuro.

Outra vez o tilintar dos copos, as crianças a rir e a correr. Outra vez as velas ardentes e  a canção dos parabéns a você. Outra vez o eco do festejo de um golo de futebol. Outra vez o  “sim!” entusiasmado do pedido de casamento. Outra vez a ladainha da mesa repleta de  cadernos e a negação para se fazerem os trabalhos de casa. Outra vez as malas feitas à porta,  para se sair em busca do desconhecido, mas com a certeza no peito de voltar e encontrar tudo  igual. Outra vez o cheiro a comida quente e cozinhada com amor, para um batalhão. Outra vez  as lembranças e outra vez a amarga constatação de que tudo acabou.

A casa estava vazia. Vazia de pessoas e de objetos. A casa estava vazia. Mas nela havia  alma.

A porta foi fechada. Do lado de lá, as recordações. Somos grãos de pó, como aqueles  que ficam independentemente do tempo, do ontem ou do hoje ou até do amanhã, numa casa  vazia. Somos grãos de pó. E no ar fica a saudade…

Por: Nádia Carnide Pimenta (Escritora e Autora das obras, “Da Ponte P’ra Cá” e “Diamante do Sul”)

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