Conto

Desvaneio

Os seus olhos encheram-se de lágrimas assim que o viu. Ele estava ali mesmo, de frente para ela, sentado na poltrona de tom encarnado já escuro pelo tempo, enquanto fumava um cigarro calmamente como se o mundo lá fora não existisse. Katherine deu um pequeno passo em frente relutante. E depois outro, e outro, entrando na sala de estar. E então parou. O homem não olhou para ela. Do fundo da sala provinha uma calma melodia de jazz que o embalava enquanto olhava pela janela de olhos vagos e cinzentos. Lá fora, o mundo estava ausente, passava pouco das duas da manhã. O frio reinava e o vento a uivar sobrepunha-se por pouco ao som no interior. A lua lá em cima tomava conta do céu limpo, lutando contra os altos candeeiros da rua pelo domínio da noite. Ele pousou o cigarro, esmagando-o sem demoras, vendo as cinzas a se espalharem pelo parapeito da janela. Katherine nunca conseguira descobrir até os seus mais míseros pensamentos – aqueles que ele tinha quando passava horas nesta mesma posição a olhar para o mundo sem realmente o olhar. Ao contrário de Kate, que tinha essa incomum característica: o dizer sem o dizer, o dizer com o olhar. E, foi então, que os seus olhares se cruzaram. Que olhos inexpressivos os dele, tão sem cor… tão sem vida. A jovem soluçou apoiando-senovelho sofá em frente, perdendo a força e fechou os seus olhos momentaneamente. O miar de Sebastian soou pela casa e Katherine forçou-se a olhar para o lado vendo o gato a aproximar-se como a examinar com curiosidade e preocupação enquanto abanava a cauda com elegância. E então, ela apercebeu-se, quase como um choque, no silêncio e frieza que a casa transmitia – o leitor de músicas não estava a tocar e ele… ele não estava lá. A mente enganou-a de novo. Katherine aproximou-se da poltrona, cambaleado. O gato a segui-la com precaução.
– Ele foi-se. – permitiu-se dizer pela primeira vez em muito tempo.

Por: Soraia Couto (Escritora e Autora da obra “Almas Condenadas”)

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