Novela

O Dia em que a Estrada Acaba – Capítulo II

Jacinta olhou para os irmãos com uma certa admiração, mas com uma certa pena também; transparecia-lhe pelo sorriso indeciso. “Tu ficas aqui…” informou-o, muito séria, continuando sentada na mesa. “Senta-te! Vamos conversar…”

Xavier, meio confuso, encolheu os ombros e, depois dos dois homens terem saído e fechado a porta, tornou a sentar-se à mesa. E esperou; de olhos em Jacinta.

Jacinta tinha uma beleza diferente. Era bolachuda, tinha a cara redonda, e o penteado – um coque perfeito – ainda acentuava mais esse traço. Vestia-se, contudo, como uma mulher do campo, com roupas rudes que se adivinhavam duras como sarapilheira: uma saia comprida, e grosseira; e uma camisa sem formas que a tornavam amorfa e desinteressante. Mas àquela luz – quente – não parecia tão desinteressante assim; aliás, nem parecia ser a mulher fria que se lhe atravessara na noite. A sua voz – de algum modo – parecera suavizar-se e a acutilância rude que escutara na estrada, e que o assustara, tornara-se num melodioso e agradável tinir que ansiava por ouvir. E até a forma como falava e se movia – como se comportava, em suma – mostravam a possibilidade de ela não ter crescido ali, junto daqueles dois abrutalhados irmãos; embora ele duvidasse que ela tivesse tido essa sorte: porque, por que razão voltaria, se a assim fosse?

“Deves achar estranho; estares aqui, nesta casa, sozinho comigo…” Manteve o olhar no dele. “O povo diz que não é próprio um homem ficar sozinho com uma mulher solteira… E muito menos normal, é, que os dois irmãos homens o deixem!“ Sorriu num encolher de ombros despretensioso. “Mas isso é o povo! E o povo nada sabe, não é?”

“Eu acho que o povo prefere não saber…”

Ela suspirou e encostou-se na cadeira.

“Porque me ajudas, Jacinta? E o que queres de mim?”

“Já te disse que não quero nada de ti!”

Ela endurecera a voz e ele, por instantes, vira-se, de novo, ao relento, na estrada fria e escura.

“Quero apenas dar-te algum conforto,” assegurou, ela, mais calma. “Deves estar cansado de fugir, de passares a noite na rua, de dormires sobre as pedras…” Levantou-se, espicaçou a lareira e sentou-se numa cadeirita, por lá. “Vem para aqui!” Ele manteve-se quieto. “Eu não te mordo, homem!”

Xavier lá foi, mas preferiu sentar-se no chão. Ficou em silêncio a olhar as labaredas.

“Conta lá! Do que foges tu?”

Xavier soltou uma risada; aquela tirada lembrara-lhe os seus próprios pensamentos enquanto atravessava aldeia. Afinal – pensou -, talvez ela fosse uma das camponesas que vira na povoação e pudesse – como elas – ser um bufo.

“Se não queres nada de mim, agradeço-te a refeição e o vinho, mas vou seguir o meu caminho!”

“O jornal dizia que eras procurado por crimes contra a pátria!” continuou, ignorando o que ele dissera. “Mas é o que dizem sempre…”

“Isso é só curiosidade? Porque me ajudas?!”

Jacinta desviou o olhar da lareira e demorou-os nele. “Nos tempos do Franco, os meus avós ajudaram, aqui mesmo – nesta casa -, muitos anti-franquistas… Gente que fugia do fascismo espanhol… Mas isso foi antes de nos termos tornado, também nós, abertamente fascistas; e ainda durante a guerra civil espanhola.” Encolheu os ombros. “Acho que temos essa tradição na família: ajudamos os perseguidos…”

“E o teu pai ia nessa conversa?”

“O que é o meu pai tem a ver com isso?!” Fitou-o furiosa.

“Segundo o Joaquim, o teu pai era um bêbado! Não me parece que gostasse de ajudar pessoas estranhas…”

“O Quim sempre falou de mais!” desabafou, num suspiro. “O meu pai era um monte de merda com duas pernas e dois braços que normalmente usava para bater a minha mãe, aos meus irmãos e a mim…” Calou-se para pensar um pouco. “Sim.” Assentiu. “Acho que isso descreve muito bem o meu pai…” Voltou a espevitar as brasas na lareira. “Sempre tivemos um celeiro…” disse, num meneio de cabeça, indicando um local qualquer lá para fora. “Era lá que os escondíamos… Ele nunca soube!”

Xavier admirou-se com o que ouvia. Era-lhe difícil aceitar que alguém ajudasse desconhecidos; se fossem apanhados, eram tratados como aqueles que escondiam. E, em parte, fora por isso que tivera de pôr o pé na estrada; não tivera coragem de pedir ajuda a amigos. E, não tivera coragem para isso, não só porque talvez tivesse sido um amigo que traíra, mas também porque sabia que eles se poderiam recusar; e, nem ele queria sentir-se abandonado, nem queria que os amigos se sentissem mal por isso. Mas, quanto ao que ali se passava, poderia estar enganado; ali, poderia não haver nada mais senão compaixão.

“Um amigo meu passou uma temporada na PIDE…” resolveu dizer. “Fui eu quem arranjou um carro para o ir buscar… Estava uma lástima; todo rebentado…”

“Falou?”

Ele sorriu. “Falar sobre o quê?! Ele não fizera nada; a não ser – talvez – pisar os calos a alguém…”

“A quem?”

“Nunca se soube. Os bufos têm as costas quentes… Esteve dentro uma semana! Só o largaram quando perceberam que ele não tinha nada para lhes contar… E foi uma sorte, ou não, não o terem morto!”

“E o que é que isso tem a ver contigo?”

“Esse meu amigo foi apanhado dias mais tarde…”

“Outra vez?!” Ele assentiu. “E?”

Xavier engoliu em seco. Não soubera mais nada dele. Aliás, soubera – pouco – através de um conhecido; o mesmo que lhe trouxera o saco: uma lona velha verde, amarrada por um cordel, com dois pães e três chouriços. «Vens até minha casa, comes uma boa refeição e depois – eu mesmo – deixo-te numa estrada que queiras…» dissera-lhe, esse conhecido, muito sério. «Tens quem te ajude?» Ele acenara que não. «Então, vamos! Falamos no caminho…»

“Eu acho que aqueles filhos-da-puta mataram-no à pancada!” respondeu, por fim; embora sem certezas.

“Isso não me admirava… Mas tu não estás certo disso, pois não?”

Não estava. Não sabia mesmo o que lhe acontecera, porque nunca lhe disseram. “Uma noite, um tipo que conhecíamos – eu e ele – apareceu lá em casa; com aquela sacola que eu trazia… Contou-me que o Manuel – o meu amigo – falara e denunciara-me!”

“De quê?!”

“Foi a pergunta que eu fiz… Mas ele encolheu os ombros; disse que isso não interessava. E infelizmente é verdade; o mal é ser-se denunciado!” Fitou Jacinta. “É por isso que eu digo que mataram de tanta porrada… Só um Manuel desesperado e enlouquecido poderia ter inventado algo assim.”

Calou-se e durante algum tempo escutaram as labaredas crepitantes.

“Eu acho que o mataram e atiraram o corpo para algum lado…” disse, ele, tornando ao assunto que o fustigava, de olhos no lume. “E aquele tipo foi avisar-me… Ajudou-me a fugir!”

“Dele não estranhaste a ajuda?!” Jacinta fitou-o sarcástica. “Ele podia ser um PIDE; um desses filhos-da-puta que achas que matou o teu amigo. Como achas que ele sabia disso que te contou?” Esperou por uma resposta sua – que não deu – antes de continuar. “Perguntaste-lhe pelo teu amigo?”

Não perguntara. Não tivera coragem. E Jacinta tinha – provavelmente – razão: aquele tipo poderia ser um PIDE e até poderia ter sido ele quem denunciara o próprio Manuel. Mas, na altura, apanhado desprevenido, não tivera tempo para mais do que aquilo que fizera: fugir. Se o apanhassem, matá-lo-iam à pancada também; ele não tinha nada para lhes dizer, mas eles iriam arrancar-lhe a vida a tentar fazer com que falasse.

A mão de Jacinta surpreendeu-o numa carícia sobre a cabeça. Era uma mão quente e delicada; sabia-lhe bem e fechou os olhos.

“Não te estou a julgar…” disse, ela. “Eu sei que quando a nossa vida está em causa, fazemos tudo menos pensar. Agimos em nome da nossa sobrevivência…”

“Como podes tu saber isso?!”

“Há vidas de tortura fora dos quarteis da PIDE… Há quem morra, também, por pancada, fora de lá; e às mãos de quem supomos nos proteger.”

Xavier não precisava de muito exercício mental para saber que ela falava do pai. O tipo deveria ter sido um monstro…

Jacinta tirou subitamente a mão da sua cabeça, como que assustada, e fitou-o. “Para onde vais, agora?”

Ele ia para sul, para o interior; ia ter com um homem que era chamado «O Cantor». Esse homem – disseram-lhe – conseguiria passá-lo para o lado espanhol; e, depois, alguém de lá alguém o ajudaria a chegar a França. Mas depois do que Jacinta dissera, já não se sentia muito seguro disso. Se aquele tipo que o ajudara fosse um PIDE, aquilo poderia ser uma armadilha e seria apanhado com uma acusação formal. Se bem que não entendia as razões para isso: ele não era ninguém; não estava associado a suspeitos; não tinha simpatias políticas…

“Não entendo…” deixou-se dizer; surpreendendo-a.

“O quê?”

“Isto tudo!” Olhou-a. “Porque motivo me perseguem?”

Jacinta suspirou. “Tens a certeza de que a PIDE não tinha motivos para prender o teu amigo?”

“Que motivos tem a PIDE para prender seja quem for?!”

“Eles têm os seus motivos; podemos não concordar com eles, mas eles têm-nos!” Levantou-se e olhou-o pensativa. “Talvez eles estejam atrás de todos os conhecimentos desse teu amigo…”

Aquilo fazia sentido; e aquilo não era novidade na forma como eles faziam as coisas. “Seja o que for, não posso ficar em Portugal!”

“Sim… E para onde vais?”

“Tinha um plano… Mas agora já não sei!”

A lareira esmorecia e Jacinta bocejou. “Está a ficar tarde… Vou deitar-me!”

“Espera um pouco…” Ouviu-se dizer, para sua surpresa. Gostava da companhia dela, do som da sua voz; gostara da carícia que lhe calhara em graça. “Fala-me de ti!” pediu, ao ver o rosto dela; meio espantado.

“Eu?!” Sorriu, comprometida. “Eu sou uma simples rapariga do campo…”

“Não és nada!” Contrariou. “Não tens nada haver com o Joaquim, nem com aquelas mulheres que vi na aldeia…”

“Ah, sim?” Tornou a sentar-se, interessada. “O que tenho eu de especial?”

Ele encolheu os ombros. “Não sei. Só sei que és diferente…”

Ela não o negou nem o confirmou, apenas se silenciou. O seu rosto, todavia, pareceu serenar e, quando o refugiou na lareira, algo nele – para ele – ganhou um novo brilho; foi como se toda ela se transformasse noutra pessoa.

“Viveste longe daqui por algum tempo, não foi?” perguntou-lhe sereno, observando-a.

“Vivi uns tempos em Lisboa…”

Lisboa, ele conhecia bem; fora de lá que viera. Talvez até já se tivessem cruzado. “Onde?”

Jacinta olhou-o muito circunspecta, inventou um sorriso e acenou que não. “Isso não interessa!”

Xavier ergueu-se e assentiu. Se ela não queria falar, pois que não falasse; mas ele também não diria mais nada. “Diz-me como se vai para esse celeiro…”

“Para o Celeiro?!”

“Sim. O Joaquim disse-me que poderia pernoitar aqui… Ou falou de mais?!”

Jacinta sorriu, divertida. “Não. Não falou. Mas tu dormes aqui em casa…”

“Onde?”

Ela ergueu-se, meio indecisa… “Não te recordas de mim?”

Xavier fitou-a confuso. Não se lembrava se já a tinha visto em algum lado; e mesmo que já se tivessem cruzado – como ainda há pouco pensara –, a verdade, é que não se lembrava onde. “Lamento, Jacinta. Mas não me recordo disso…”

Ela sorriu e estendeu-lhe a mão. “Vem comigo…”

Jacinta levou-o da sala, encaminhou-o pelo corredor e abriu a porta de um quarto; mostrou-lho. Era um quarto de casal, a cama estava ainda por abrir e parecia confortável. “Aqui, durmo eu!”

“E eu?”

Ela olhou-o com um brilho estranho no olhar e aproximou-se dele. “Podias dormir aqui, comigo…”

Segundo Capitulo (de Cinco) do conto, “O Dia em que a Estrada Acaba”
Por: P. J. Vulter (Pseudónimo do escritor Paulo J Fonseca, autor das obra “Marta”)

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