Novela

O Dia em que a Estrada Acaba – Capítulo IV

[O Texto que se segue contem conteúdo explicito — referências a conteúdos sexuais.]


Jacinta largou-lhe as mãos, nitidamente magoada. “Quer dizer que se eu me tivesse apresentado, daquela vez que te vi, não me terias tirado daquela vida…”

Xavier engoliu em seco. Não era aquilo que ele queria dizer; mas também não era assim como Jacinta imaginava. Jamais ele a levaria daquele bordel naquela noite; teriam de se conhecer mais e melhor. No entanto, a verdade é que quando aquela questão fora levantada, naquela manhã, também ele estava certo de que isso aconteceria; inevitavelmente.

Ele só queria que ela ponderasse bem no que estava a fazer; a dar guarida a um foragido. Se a PIDE o apanhasse, ali, dificilmente acreditariam numa coincidência…

“Escuta, Jacinta… Eu entendo o que dizes.” Acabou por dizer e arrancou-lhe um sorriso. “Mas as coisas não são tão simples assim; como tu as fazes parecer. Se te tivesses apresentado, eu estou certo de que te tiraria daquela vida, mas nunca naquela noite. Percebes?” Ela acatou e engoliu em seco. “É isso que eu quero dizer com ilusão, Jacinta: tu não me conheces verdadeiramente. Podes vir a conhecer, se eu ficar… Mas, se eu ficar, estou a colocar em risco a tua vida e a dos teus irmãos.” Encolheu os ombros. “E impedir a ajuda que vocês poderão dar, no futuro, a outros como eu…”

Jacinta tomou-lhe o rosto nas mãos, com um vigor que o assustou, e puxou-o para ela. “Eu só te quero ajudar a ti, Xavier! A ti! Não percebes que não existe mais nada para mim?”

Ele não percebia. Não percebia aquilo senão como o resultado descompensado de uma ilusão vivida, dia após dia, desde a noite em que o vira. Como poderia, ele, igualar esse Xavier que ela criara na sua mente?

Era melhor que partisse. Magoaria Jacinta, não tinha dúvidas, mas poupá-la-ia a uma desilusão no futuro e – quem sabe – a uma denúncia por vingança que o levaria às masmorras da PIDE e à morte certa. E, quando postas assim as coisas, era evidente para que lado pendia a balança.

Jacinta beijou-o. E ele deixou-se levar; porque gostava dos lábios dela, do seu sabor e das mãos dela na sua pele. Gostava tanto que começou a procurá-la, a estreitá-la de encontro a si, desejando levá-la para a cama, despi-la e tomá-la.

Jacinta levantou-se e foi dar duas voltas à chave.

“O que fazes? E os teus irmãos?”

Ela olhou o relógio, pendurado junto ao fogão, e sorriu. “Temos tempo; se formos rápidos…”

Num passo veloz puxou-o até ao quarto, atirou com a porta, subiu as saias, voltou-lhe as costas e inclinou-se. “Fode-me…” murmurou, olhando-o por cima do ombro.

Xavier olhou-a e cheio de desejo penetrou-a, mas com delicadeza; queria sentir o mesmo que sentira na noite anterior – aquela sensação maravilhosa – e demorar-se. O arquejo de Jacinta, contudo, inebriou-lhe os sentidos e incendiou-lhe as vontades; e ele, entre os murmúrios, os vagidos e o ranger feroz da cama, explodiu num rugido inesperado.

Quando Jacinta recuperou, rebolou para cima da cama e olhou-o de lá; um olhar intenso, brilhante e sorridente. Depois soltou uma gargalhada, levantou-se, deixou que as saias a cobrissem, ajeitou-se, e beijou-o com um ar de superioridade. “Diz lá que não vale a pena!” Piscou-lhe o olho.

Foi encontrá-la na cozinha, de volta do almoço, com a porta entreaberta e por onde soprava uma brisa fria. Assim que o viu, sorriu e mordeu o lábio inferior provocadoramente.

Ele sorriu-lhe também e sentou-se. “Não podes estar com essas coisas, na frente dos teus irmãos!”

“O Quim já deve ter percebido…”

Aquilo surpreendeu-o; embora só em parte: ele já ficara com essa sensação de manhã. “E o Zé?”

“O Zé?!” Riu e encolheu os ombros. “Quem sabe o que lhe vai na cabeça… Ele não ouve e não fala! Acho que nunca saberemos…” Tapou a panela e limpou as mãos a um pano. “Mas não te preocupes com isso, porque eles não têm nada a ver com a minha vida!”

“Isso não é muito normal…”

“Não. Não é… “ admitiu, sentando-se ao pé dele. “Mas é assim!”

“Porquê?”

Ela fitou-o muito séria e sorriu antes de responder. “Saberás isso, no dia em que me contares porque foges da PIDE…”

“Ora essa!” Ofendeu-se. “Eu não te menti, Jacinta!”

“Talvez só não o saibas…”

Ele olhou-a perplexo. “Sabes de alguma coisa que eu não saiba?”

Jacinta olhou-o demoradamente e acariciou-lhe o rosto num enlevo sonhador. “Devias fazer a barba; naquela noite não tinhas barba e estavas tão bonito!”

Xavier levou a mão ao rosto. A barba estava grande, de facto. Na estrada tentava fazer a barba de três em três dias para evitar ficar com ar de quem estava a fugir, mas na última semana a lâmina do seu canivete começara a ficar romba e ele deixara-se disso; para todos os efeitos era um foragido.

“Eu peço ao Quim para te arranjar uma navalha…” Levantou-se e foi mexer a comida na panela. “Eu gostava de te ter por cá, Xavier!”

«Para quê?», perguntou-se. Ele continuava a não poder oferecer-lhe nada, senão aquilo que andavam a fazer. E – sinceramente – tinha medo de se distrair e que se esquecesse do que o levara ali; fugir da PIDE. Não. O lugar dele era na estrada…

“Não podes andar na estrada o resto da vida…” disse, ela, encostada ao fogão, com o pano nas mãos. “Um dia a estrada acaba! É inevitável que te deitem a mão; eles são muitos, têm olhos em todo o lado e apanham-te. Pode ser que não te apanhem pelo que te procuram, mas uma queixa de vagabundagem fará o mesmo…” Suspirou antes de atirar com o pano para o lado. “Aqui, ao menos, não andas por aí a tentar a sorte…”

Xavier não poderia escusar-se a achar lógica no que ouvia. Uma coisa era partir em busca do homem chamado «O Cantor», na esperança de que ele o passasse a salto para Espanha e daí para França; outra coisa era andar sem rumo: andar – sem parar – por essas estradas, sujeito às más-línguas e a outras perfídias. Por quanto tempo conseguiria andar antes de ir parar aos calabouços?

E doenças?

Poderia ser acometido por doenças e morrer esquecido nalguma berma de estrada.

Todavia, ali, mesmo não tentando a sorte, tentava o azar. Alguém poderia vê-lo, alguém poderia não ficar convencido com a história da jorna…

“Não tens medo que – um dia – alguém entre por aí, com a polícia atrás, para me prenderem?!”

Josefina avançou até ele e olhou-o; apenas o olhou.

“Não me respondes?!” Abanou a cabeça perplexo. “O que é que achas que farão aos teus irmãos? E a ti?” Suspirou perante o silêncio dela. “Achas que vos deixam ficar aqui e continuarem com a vossa vida…” Puxou-a com delicadeza e sentou-a numa cadeira, à mesa. “Sabes alguma coisa do que aconteceu às pessoas que ajudaram?”

“Porquê?”

“Porquê?!” Riu-se. “Podem ter sido apanhados; podem ter falado de uma casa no meio do campo… Podem ter contado que há três irmãos – o Quim, o Zé e a Jacinta – que ajudam gente em fuga.”

“Porque fariam isso? Porque denunciariam quem os ajudou?!”

«Que pergunta tão ingénua!», pensou de si para si. “Porquê?!” Soltou uma risada incrédula. “Porque para pararem a tortura as pessoas fazem de tudo! Até mentem se for necessário; quanto mais sabendo de coisas que interessam à PIDE!”

“E o que sabes tu de gente torturada?”

“O Manuel… O Manuel é tudo quanto preciso de saber. Ele contou-me tudo o que lhe aconteceu e o que viu acontecer… Contou-me – disse-me, ele -, porque precisava de expulsar aquelas imagens da cabeça; precisava de esquecer as dores excruciantes que lhe provocaram; para lhe soltar a língua, diziam-lhe… Torceram-lhe os dedos até ao limite; e partiram-lhe alguns!” Sentou-se, cansado e sem forças. “Eu não quero ser preso, Jacinta! Não quero, porque não tenho nada para lhes contar e porque sei que vão matar-me; não irão deixar de me bater até que eu lhes diga o que querem saber. E como eu não sei nada, só me deixarão quando estiver morto!”

“Como aconteceu com o Manuel…”

“Provavelmente…” Fitou-a pensativo. “O Manuel terá inventado alguma coisa sobre mim; pode ser que isso o tenha poupado…” Baixou o olhar triste. “Mas duvido. Acho que isso já terá sido no limite da sua sanidade e terá sido um delírio desesperado do meu amigo!”

“O teu amigo é perfeito!” Provocou. “ Ele não é como aos outros! Ele não mentiria para se salvar da tortura…” Sorriu desdenhosa. “As pessoas que nós ajudámos – os meus irmãos e eu – vão denunciar-nos, mas o teu amigo nunca o faria…”

“O meu amigo não sabia nada de nada; tal como eu… O meu amigo não tinha nada que pudesse usar como moeda de troca; talvez – talvez – em desespero possa ter mentido sobre mim… Mas essas gentes que vocês ajudaram – todos eles – sabem de três irmãos que auxiliam foragidos!” Olhou-a muito sério e de cenho franzido. “Que os teus irmãos sejam ingénuos, eu ainda acredito. Agora tu! Tu que estiveste em Lisboa, naquele bordel; que ouviste as coisas que ouviste; as coisas que alguns ilustres clientes contavam às putas, só para se fazerem importantes… Tu devias saber melhor!”

Jacinta engoliu em seco. “Bom… Eu não sei nada disso! Eu era uma puta – sim -, mas sem clientes ilustres!” Retorquiu levantando-se, irritada.

E, nesse momento, ele achou que talvez não tivesse usado as melhores palavras.

“Talvez tu saibas… Tu e as tuas putas loiras e melhor dotadas. Eram elas – sempre – as mais procuradas!” Riu. “Talvez alguma te tenha contado alguma coisa; talvez até seja por isso que o teu amigo foi dentro e te persigam a ti…” Virou-lhe as costas e foi ver do almoço. “Já te ocorreu que talvez alguma delas tenha denunciado o teu amigo?”

Xavier não via qualquer impossibilidade naquilo que ouvia. Mas mesmo assim, não conseguia ver o porquê. Ouvira coisas; algumas gostavam de falar para se fazerem valorizadas e contavam-lhe aquilo que sabiam… Mas ele fazia ouvidos de mercador; nada daquilo lhe interessava saber, porque quanto mais se sabia menos bem se estava. No entanto, não estava livre de que alguma delas, assustada pelo que fizera, resolvesse atuar à cautela.

“Como te disse,” continuou, ela. “Talvez só não saibas que mentiste…”

“Eu não menti!” Exaltou-se irritado. “Eu não sei de nada, Jacinta! A PIDE não tem razões para me perseguir; nem a mim, nem ao Manuel… Caramba!”

“Fala baixo!” gritou. “O Quim pode ser ingénuo, mas tem razão quando diz que as paredes, aqui, também têm ouvidos!” Atirou com o pano para cima do móvel. Depois, inspirou profundamente e apagou o fogão. “Não vês ninguém que pudesse ter-te feito isso?”

“Não.” Continuava irritado. “Mesmo que alguma me tenha contado alguma coisa importante eu não liguei… Eu ia lá para beber e…”

“E foder!” Riu. “Podes dizê-lo! Ias, tu, e todos os outros…”

“Mas bebia bem; e às vezes já ia bem bebido para os quartos…” Não podia dizer o mesmo do Manuel; o Manuel bebia muito pouco. “Talvez o Manuel soubesse de alguma coisa que não devia; e pensem que ele partilhou isso comigo…”

“Talvez…” Cruzou os braços. Toda a sua doçura parecia ter desaparecido. “Seja como for, o teu amigo Manuel não te pode ajudar agora! E essa loura que lhe contou – seja lá o que for – também não deve poder…” Engoliu em seco. “Se é que ainda fala ou anda… Se é que ainda está entre nós…” Voltou-se para o fogão e destapou a panela; o cheiro a comida caseira encheu o ar. “E se tu não tivesses sido tão rápido a meteres o rabinho entre as pernas, se não fosses tão certo das tuas certezas, talvez tivesses pensado nisso e tentado falar com alguém de lá.” Tornou a encará-lo.

“Achas que alguém me iria ajudar?!” perguntou incrédulo.

“Eu, se soubesse, ajudar-te-ia…”

Ele observou-a curioso, tentando perceber quanto daquilo seria verdade; dado que ela mudara tão de repente que o entontecera. Mas desistiu de saber.

“Isso, agora, não interessa!” Levantou-se, ainda arreliado com tudo aquilo; mas principalmente com a mudança em Jacinta. Fitou-a, por instantes, em silêncio. “Achas que fui um cobarde; não é? Achas que me acobardei, perante a hipótese de ser preso pela PIDE, e fugi como um rato!”

“Eu não disse isso.” Sorriu, de olhos nele. “Mas é uma forma de ver as coisas…”

Ele estava chocado. “Talvez se tivesses visto o Manuel como eu o vi; se tivesses ouvido o que ele contou… Talvez se soubesses que morrerias no momento em que entrasses naqueles calabouços, porque sabes que irão tentar arrancar-te uma qualquer verdade à porrada; encher-te de pancada até que digas alguma coisa que lhes interesse, ou até ao momento – febril e desesperante – em que entregas os pontos e inventas uma coisa qualquer só para pararem de te bater…”

Calou-se. Tinha a boca seca e ficara sem forças; e procurava amparar-se a uma parede quando sentiu o mundo rodar. “Preciso de me sentar…” murmurou.

Jacinta ajudou-o e conduziu-o a uma cadeira. E, ele, olhando-a agradecido, constatou que queria muito que ela o entendesse – era importante -, mas, depois, o Joaquim entrou e o Zé veio logo atrás; e a conversa terminou.

A refeição foi servida, e tomada, num silêncio de cadafalso; ninguém falava. E não era só porque estivesse esplêndida – que estava; no entanto, pairava a discórdia no ar e quando a terminou – rápido -, percebeu que não tinha grande fome; já não…

“O Xavier vai deixar-nos; hoje, ao final do dia!” anunciou, Jacinta, num tom solene e num sorriso que só aos outros não pareceu falso. E ele, aos outros, talvez nem tenha parecido surpreendido. “Eu vou preparar-lhe um farnel; um bom farnel que lhe dará para muitos dias…”

Quarto Capitulo (de Cinco) do conto, “O Dia em que a Estrada Acaba”
Por: P. J. Vulter (Pseudónimo do escritor Paulo J Fonseca, autor das obra “Marta”)

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