Novela

O Dia em que a Estrada Acaba – Capítulo V

“Não gostas do trabalho no campo, homem?!” provocou, Joaquim. “Falou-se em trabalho e metes logo rabinho entre as pernas…”

“É!” Retorquiu sarcástico. “Segundo a tua irmã parece que tenho esse hábito…” Levou uma garfada de comida à boca – só porque sim; mastigou-a e continuou. “Ela também acha que eu fui muito solícito a sair da cidade…”

“Sul..?” Joaquim virou-se para a irmã. “Su quê, Jacinta?!”

“Solícito…” corrigiu, ela, fingindo-se bem-disposta. “Quer dizer que foi rápido… Que teve pressa demais!”

“O homem tinha a PIDE aos calcanhares, Jacinta!” protestou. “O que querias que ele fizesse?”

Jacinta não respondeu. Em vez disso, fitou o irmão de uma maneira que o calou.

Xavier, depois de almoço, retirou-se para um canto qualquer e tentou descansar. Não percebia a reação de Jacinta; ia muito para além da reação a uma ofensa pelas palavras que usara – inapropriadas. E, se por um lado, queria que ela lhe explicasse, por outro, não queria saber. O que queria era que a noite chegasse depressa e o acolhesse no seu manto frio, mas protector.

“Para onde vais, agora?” Jacinta emboscara-o. Ele enfiara-se num canto da casa e ela, agora, barrava-lhe a saída.

“O que te interessa isso?”

“Disseste que tinhas um plano, mas que depois do que eu te disse, já não tinhas…” continuou, ignorando a sua pergunta. “Se sou responsável pelo teu desnorte, gostaria de te ajudar!”

“Se gostasses de me ajudar não me tinhas expulso da tua casa!”

“Eu não te expulsei,” retorquiu, calma e solene. “Estou a libertar-te… Não queres ficar aqui comigo! E podes dizer que é por isto, ou por aquilo, mas a verdade é que és tu que não queres…”

“Mas tu és doida?!” interrompeu-a irado. “Achas que eu não preferia ficar aqui, contigo, a ir para a estrada; jogando a meu destino à sorte a cada noite?!” Ela não respondeu; mas não foi só o não responder que ele estranhou: ele achava que ela o ignorava. “Eu pensava que estavas ofendida comigo… Por causa das minhas palavras! Agora vens dizer-me que estás a libertar-me…” Sorriu e encolheu os ombros. “Acho que prefiro acreditar que estás ofendida comigo… Isso é mais suportável do que achares que eu posso, alguma vez, viver em paz, quando sou procurado pela PIDE; ou achares que isto é produto da minha cabeça, exagero, ou cobardia! Que isto são desculpas para fugir! E fugir do quê?! De uma mulher que gosta de mim e de quem eu gosto; de uma casa confortável; de uma vida calma? Será que não entendes que não posso ficar porque a PIDE pode descobrir-me e que eu não quero que tu vás dentro por minha causa?!”

Ela fitou-o muito séria. Olhou-o por muito tempo, em silêncio, deglutiu em seco – e por algumas vezes – e ele teve esperanças que ela finalmente tivesse entendido.

“Pois bem…” Suspirou resignada. “O farnel está pronto! Quando quiseres ir… Vai!”

Ele levantou-se de repente e perplexo. “É só isso que tens para me dizer?!”

“Que queres mais que eu te diga? Obrigado?! Obrigado por decidires, em nome da minha segurança, privares-me de viver o meu amor?”

“Tu sabes o que eles fazem às mulheres?!”

Ela encolheu os ombros. “Batem-lhes como aos homens… Talvez abusem de algumas!”

“E dizes isso assim?! Como se isso não fosse nada?!”

“Que mais há a dizer?” Cruzou os braços. “As coisas são como são e eu não posso alterar nada…”

“Pois eu não posso concordar contigo!”

Jacinta sorriu deliciada. “Então, sempre fizeste alguma coisa… Essa história do teu amigo Manuel está mal contada; ele sabia de alguma coisa sobre ti. Foges porque tens razão para fugir!”

Xavier, naquele momento, decidiu que estava tudo perdido; Jacinta estava para lá de qualquer argumentação. Ele não podia concordar com ela, porque – apesar de nada fazer para alterar as coisas – não se revoltar estava errado; pelo menos revoltar-se era uma coisa que se poderia fazer dentro da cabeça e sem que ninguém soubesse.

“Não, Jacinta, ” murmurou. “Não fiz mesmo nada! Lamento se te desiludo… No entanto, não posso saber das coisas que se passam e nem me revoltar contra isso. Isso é que eu não posso fazer…”

“De que te serve a revolta?!”

De que lhe serviria a revolta?

Não sabia; não sabia mesmo… Mas achava uma coisa:

“Acho que faz de mim uma melhor pessoa!”

Xavier conseguiu abrir caminho até à cozinha. O farnel estava em cima da mesa, numa trouxa nova, de maior qualidade. Olhou-o com a mesma raiva que sentia da Jacinta e, de repente, não lhe apetecia levar nada dali; deveria sair com o que entrara. Mas não estava em posição de ser orgulhoso…

Agarrou na trouxa e sentiu-a pesada.

“Tens aí pão para muitos dias…” revelou, Jacinta. “Tens também chouriço, presunto e queijo. E tens vinho; tinto que aquece melhor!”

Xavier meneou a cabeça em agradecimento, colocou a trouxa às costas e foi para a porta.

“Alguma vez te tornarei a ver?” perguntou-lhe, ela, quando estava prestes a sair.

Seria difícil que tal acontecesse. Até porque ele achava que ela era um pouco louca…

“Não sei…”

“É justo…” Engoliu em seco. “Boa sorte e que a noite te proteja sempre…”

Xavier saiu porta fora e perguntou-se – de novo – sobre quanto daquilo que ela dissera era, de facto, sentido.

Não se voltou para trás; não havia motivos para tal e ele não lhe queria dar esperanças. Continuava, contudo, à medida que se afastava pela estrada de terra, sem entender o que se passara; o que mudara e o que fizera com que Jacinta se tornasse tão fria e distante ao ponto de o querer ver pelas costas. E isso era algo que, não só, não compreendia, como também, não estava certo de ser verdade; porque não fazia sentido.

Pensara que pudesse ter sido a forma fria como pusera as coisas sobre os irmãos e sobre o bordel; e o desrespeito que – de certa forma –, com isso, acabara por ter para com ela. Mas não conseguia estar certo disso; não achava isso suficiente e não era nada que um pedido de desculpas não resolvesse. E, para além disso, ela parecia ter-se agarrado a esse momento, a essa má escolha de palavras, e não o largara mais; como se aquilo fosse tudo o que havia.

E aquela paixão adolescente – que não tinha outra forma de pôr a coisa – que tinha por ele? Para onde fora?!

Talvez fosse como ele receara: uma ilusão que depressa se desfez. Mas tivera ele alguma culpa?

Tivera: claro que tivera. Fora ele quem a desiludira. Mas a ilusão fora criada por ela… Uma ilusão criada num vislumbre de uma noite.

O Júlio correu atrás dele, ladrando – um ladrar bem-disposto -, até se emparelhar consigo e manteve-se assim; no mesmo passo. E Joaquim, depois de correr uns bons metros, sorriu-lhe e imitou o cão.

“Diz-me lá, homem; a sério: porque vais embora?”

Xavier sorriu de si para si, pensando que teria preferido – e até o esperava – que tivesse sido Jacinta a vir atrás dele; que fosse ela que tivesse corrido para lhe dizer que estava errada e que ele poderia ficar. Ficaria?

Talvez não. Para sempre, não. Mas poderia ter ficado por mais uns dias e até – quiçá – poderia ter prometido voltar…

“Sou um homem fugido, Joaquim. Ficar aqui, iria pôr-vos em perigo.”

“Essa é a versão oficial…” desconversou. Andava a seu lado, ao mesmo ritmo, mas sem o olhar. “Eu sei que vocês andavam enrabichados; tu e a Jacinta! Ela, pelo menos, não fez nenhum esforço para o disfarçar; e além disso, desde que te viu no jornal, não falou noutra coisa…” Sorriu e encarou-o. “Dizia que eras um homem bonito e instruído…” Voltou a olhar a estrada. “Quanto ao bonito…” Encolheu os ombros. “Não sei! Não aprecio homens! Mas quanto ao instruído; não tenho dúvidas…” Tornou e encará-lo. “És doutor?”

Xavier sorriu perante a simplicidade do Joaquim. Era um bom homem e seria uma pena se o álcool – no futuro – o destruísse.

“Não sou doutor, Joaquim… Não andei na Universidade. Tudo o que sei foi por minha autocriação. Li muito; tudo o que podia ler, eu lia.”

“E o que quer a PIDE de ti?!”

Foi a vez de ele encolher os ombros. “Não sei, Joaquim! Acho que um amigo meu me denunciou, mas não sei o que disse…”

Joaquim parou e fitou-o muito ofendido. “Amigo?! Que amigos são esses, homem?!”

“Os amigos que apanharam tanta porrada que já não sabem o que dizem…”

Voltaram a caminhar, em silêncio.

“Achas mesmo que foi isso?” perguntou-lhe, Joaquim.

Apesar de tudo, de todas as hipóteses levantadas por Jacinta, ele continuava a acreditar naquilo e a sua resposta foi um meneio de cabeça. “Quando um homem não sabe nada de nada e lhe perguntam coisas; que responderá ele?”

“Nada!”

“E achas que aqueles filhos-da-puta vão aceitar que fiques calado?” Joaquim acenou que não. “E quando a um homem, que não sabe nada de nada, lhe perguntam coisas às quais não sabe responder, e não lhe permitem ficar calado; porque lhe batem até mais não? O que achas que faz esse homem?”

“Morrerá…”

“Ou mentirá para tentar salvar a vida…”

“Eu acho que morreria…”

Xavier soltou uma risada. “Eu, agora, também acho que sim. Mas no momento, quando me arrancassem a penúltima unha, não sei; talvez mentisse para me poupar a mais sofrimento…”

Continuaram a andar em silêncio; só se ouvia o som dos passos na terra. O Júlio afastou-se e Joaquim chamou-o com um assobio estridente. “Então, porque é que vais embora?”

Xavier sorriu à insistência de Joaquim. “Não sei… “ Deveria dizer-lhe para perguntar à irmã; mas não queria complicar a vida a Jacinta. “Acho que talvez tenha ofendido a tua irmã; de alguma maneira…” Sabia que ofendera, mas continuava a achar que não era razão para aquilo. “Poderia ter-lhe pedido desculpas, mas acho que isso não ia resolver…”

“Achas que ela não aceitava?!”

Xavier confirmou as suspeitas do outro. “Acho que não!”

Joaquim assentiu e parou. “Segue por este caminho até ao fim…” disse, apontando para um lugar imaginário no horizonte. “Lá ao fundo, vais dar com a estrada onde te apanhámos…” Estendeu-lhe a mão e ele apertou-lha. “Tive muito gosto em te conhecer; e obrigado por teres feito Jacinta feliz…” Sorriu num encolher de ombros. “Foi por pouco tempo, mas foi importante!”

“Porquê?”

“Ela foi cheia de esperanças para a cidade e voltou vazia…”

Xavier achava que havia mais a contar. Mas quereria ele saber?

Não. Aqueles eram assuntos deles e ele tinha de se pôr a caminho. Não se queria envolver…

“A minha mãe mandou-a para Lisboa depois que viu os olhares do meu pai…” disse, Joaquim, de repente; insistindo no assunto. “A minha mãe levava pancada, homem, mas não era nenhuma parva! Percebeu que a Jacinta…” Calou-se; era evidente que lhe custava falar daquilo. “Enfim; que não ficaria bem se por cá ficasse… E ela – a Jacinta – foi. “

“E quando voltou?”

“Voltou há uns meses; para o funeral da mãe… E já não regressou!” Fungou e apertou o nariz. “Pensei que fosse tristeza pela morte da mãe…”

“E do pai!” Corrigiu; afinal, o pai morrera pouco depois.

Joaquim sorriu e acabou por soltar uma risada. “ Isso deu-lhe uma alegria especial…”

Xavier não sabia o que pensar daquilo. E também não queria saber.

“Não sei o que se passa com a Jacinta, Joaquim…” acabou por dizer. “Agora que o dizes, também notei que ela mudou drasticamente – de repente; sem que eu percebesse porquê…”

“Não disseste que a ofendeste?!”

“Não acho que tenha sido razão para isso… Além disso…” Calou-se, pensativo; mas resolveu dizer. “Além disso, acho que nunca acreditou em mim!”

Joaquim fitava-o perdido; parecia que não entendera o que ouvira. Mas ele encolheu os ombros e desistiu de se explicar; aceitou que Jacinta tivesse concebido uma fantasia qualquer sobre ele – talvez o visse como um revolucionário temerário – e que ele não estivesse à altura da mesma; nunca se estava.

Depois, decidido a ir – já deveria ter ido -, ainda ponderou em dizer ao Joaquim para deixar de beber daquela maneira; que ele poderia ser feliz sem a bebida e que a bebida – um dia -, se ele não se acautelasse, levar-lhe-ia tudo. Era aquela a sua profunda convicção. Mas achou melhor não lhe dizer nada.

“Adeus, Joaquim!”

Xavier encaminhou-se na direção que Joaquim indicara e, só quando nada mais escutava para além dos seus pés, esmagando os torrões de terra avermelhada, suspirou aliviado. Júlio apareceria no seu encalce, meia hora mais tarde, já ele estava na estrada principal; mas vinha sozinho e deixara-o logo após.

O que fora aquilo que lhe sucedera?

Fora um episódio estapafúrdio da vida?

Um incidente aleatório na sua existência?

Que ganhara com aquilo?

Sexo, dúvidas, esperança, mágoa, boa comida, um banho e um farnel bem apetrechado. Pensando bem, não fora um mau desvio.

Mas não fora só aquilo que conseguira; dias mais tarde, quando parou para descansar num rebordo escondido da estrada, percebeu que o Júlio continuava a segui-lo – ainda que à distância – e descobriu que também ganhara um cão.

“Júlio!” bradou. “Anda cá, rapaz! Toma…” Ofereceu-lhe um pedacito de chouriço. “Então vieste atrás de mim?!” Esfregou-lhe a cabeça energeticamente enquanto ele – sentado – mastigava o enchido deliciado e olhando-o muito sério. “Foi a Jacinta quem tem mandou, não foi?” Júlio inclinou a cabeça; como se entendesse. “Disse-te para vires olhar por mim…” Júlio não respondeu – como era evidente; mas ele gostava de acreditar naquilo que dizia e que Jacinta sempre acreditara nele. De alguma forma, era importante para si que ela não o tomasse por um aldrabão. “Achas que ela falava a sério quando me chamou de mentiroso?” Júlio bocejou, e espreguiçou-se. E ele acatou a indirecta. “Parece-me boa ideia, rapaz! Vamos dormir!”

O caminho foi-se fazendo, noite atrás de noite; umas mais frias e outras menos. E o farnel foi ficando mais leve, a cada dia que passava; apesar do seu esforço de racionamento.

Os dias, esses, continuava a passá-los a dormir; e, com o Júlio encostadinho a si, era mais confortável do que antes, porque era como ter uma braseirinha por perto. Mas nem sempre descansava. O medo de ser apanhado continuava lá, como um fantasma de tocaia, à espera do momento certo para lhe dar o toque gélido da morte; e, para além disso, também sonhava com Jacinta. Alguns sonhos eram bons: eles deitavam-se na cama e ela segredava-lhe ao ouvido «Fode-me!”; e era isso… Outros não eram tão bons. Nesses outros, ela levantava-se da cama, desencantava uma faca de algures e abria-lhe a barriga; e, depois, ria à gargalhada enquanto ele olhava estupefacto as entranhas derramadas no chão.

Ele sabia que aqueles sonhos – os da barriga – eram resultado da sua suspeita de que eles tivessem morto o pai; mais do que isso, da certeza, de que se o tivessem feito, teria sido a Jacinta a tirar-lhe a vida. Não tinha pena do monstro; se isso tivesse acontecido, teria sido para se vingarem da morte da mãe e dos anos de maus tratos. Todavia, era macabro imaginar Jacinta a fazê-lo… Era-lhe mais fácil ver o Joaquim a matar o pai. Mas ele achava que fora Jacinta: «Os meus irmãos vão sempre valer-me!», dissera ela. E, isso – compreendera, então, e estava cada vez mais certo disso -, significava que eles estavam em dívida para com ela…

Noite após noite, à medida que se ia afastando daquele sítio, e dia após dia, na mesma medida em que o farnel se esvaziava, os sonhos foram desaparecendo. Mas no seu lugar nascia o vazio ou, então, o terror da PIDE. Talvez fosse por isso, pelo medo que sentia, que tinha saudades dos canaviais – que o protegiam melhor – e da cantilena das canas, quando o vento por eles passava; mas ali, para aqueles lados, não havia canas: a terra aplanara e o frio era diferente.

No dia em que o farnel acabou, deitou-se, e voltou a sonhar com a Jacinta; com as suas formas e o calor dos seus carinhos… Essencialmente sonhou com os seus carinhos e, quando acordou – já depois do sol se pôr – teve a sensação de que ela lhe acariciava a cabeça; como fizera junto à lareira.

Nessa noite, quisera a sorte que não andassem muito. Depois de uma hora de caminho, soube que chegara ao destino. Os recortes que via na penumbra da paisagem eram os mesmos que o homem, o misterioso homem que o ajudara – fosse ele PIDE, ou não -, lhe dissera que veria quando chegasse a onde tinha de chegar. E, por isso, procurou um sítio para esperar pelo dia. Seria, todavia, uma espera longa, com frio e fome… Talvez – ponderou – pudessem ir já.

“Vamos já, Júlio?” Agachou-se para falar com o cão. “O que achas, rapaz?” Júlio sentou-se e fitá-lo; como se quisesse que ele o convencesse. “Um fogo para nos aquecer, comidinha quentinha…” O seu olhar desviou-se do cão para mirar a localidade; apenas a dezenas de metros. “Que dizes, hã?!” perguntou, de olhar no animal. Mas Júlio não parecia com muita vontade, deitou-se, e latiu um protesto. “És capaz de ter razão… Quem é que abre a porta a dois maltrapilhos?!” Levantou-se e decidiu que iriam pela manhã.

O dia amanheceu e Júlio acordou-o com um ganido baixo e aflito. Achou que se teria assustado com o seu grito, quando tornou a ver as suas entranhas espalhadas pelo chão sob as estridentes e sonoras gargalhadas da Jacinta empunhando uma faca enorme; mas não… O seu olhar estava diferente – vidrado, como se tivesse estado a chorar; como se um cão chorasse. E Xavier assustou-se. Alguma coisa se passava; sentia-o na alma.

Olhou em volta. A manhã estava nebulosa, fria e densa; e uma névoa peregrina pululava por todo o lado, incerta sobre onde poisar, como se receasse, por ali, ficar.

Saiu do seu recanto, ainda que sem grande vontade e sob a observação ansiosa do Júlio, e começou a andar receoso; tinha um mau pressentimento inexplicável. A povoação estava perto, foi avançando – empurrado sabe-se lá por que forças – e foi aí que as viu.

Covas. Sob a penugem esbranquiçada da névoa, via covas abertas na berma da estrada, como sepulturas à espera de mortos; eram muitas e, para onde quer que olhasse, só via aquelas sepulturas encomendadas, aquelas covas que esperavam tenazmente pelos futuros ocupantes.

De repente, apercebeu-se de ruídos distantes; tumultos. Havia tumultos nas ruas da povoação; as pessoas protestavam… Mas depois ouviu tiros – vários, uns seguidos aos outros, encadeados atrozmente – e, depois dos tiros, foi o silêncio – um curto e lutuoso silêncio – e depois dele, só depois, escutou o choro; um choro carpido e agonizante.

Não foi preciso muito para entender o que se passava… E perceber a razão das covas abertas no chão.

Foi então que viu um jovem, esbracejando, vindo na sua direcção, decidido, mas sem nunca parar de olhar por cima do ombro; com o pânico e a revolta a brilhar-lhe no olhar…

“Volte para atrás homem; volte! ” gritou-lhe, ofegante, de mãos apoiadas nos joelhos. “Não entre ali, por amor de deus! Salve-se!”

“O que se passa?”

“A morte …”

“PIDES?” O rosto do outro contorceu-se de horror e confirmou-o; a medo.

Xavier desviou o olhar para a povoação envolta na neblina. Ele fora até ali com o propósito de pedir ajuda, de se salvar, mas constatava que ali, naquele lugar, não haveria salvação alguma; apenas o inferno o aguardaria. Ainda assim, tinha de perguntar; em nome da sua sanidade e futuro precisava de saber.

“Eu vinha procurar um homem,” disse, olhando o jovem. “Disseram-me para perguntar pel’O Cantor…”

“O Cantor?!” O homem abanou a cabeça – perdida – e virou-a para a povoação; as lágrimas caíam-lhe do rosto. “O Cantor morreu… Estão todos – todos – mortos!”

E foi nesse momento que Xavier, já dando meia volta, percebeu que Jacinta – louca, ou não -, ao atrasar a sua caminhada, acabara, muito provavelmente, por salvar-lhe a vida também… E que ele – talvez – tivesse sido precipitado em renegá-la.

Afastou-se daquele fim do mundo, com o Júlio por companhia, a revolta a fermentar-lhe no estômago e o medo a morder-lhe os calcanhares, mas não conseguia deixar de pensar nas covas abertas no chão; elas estavam atrás de si, mas ele via-as na sua frente e achava que nunca na vida as iria deixar de ver… Talvez fosse por ser aterrorizador saber que tencionavam enchê-las; ou, talvez, porque temesse que tivesse sido para uma cova como aquelas que tivessem atirado com o Manuel…

O som dos tumultos tornou-se a ouvir; de repente: os ruídos revoltos erguiam-se do silêncio tenebroso. Eram as gentes – pensou, enraivecido –, eram as gentes que revoltadas com a injustiça e a opressão ignoravam o bom senso e carregavam sobre os PIDES.

E, então, parou, deixou de arrastar os passos indolentes e pensou – cheio de ganas – que deveria ir ajudar a esmagar aquela corja maldita do regime.

Na sua cabeça, os camponeses, armados com alfaias agrícolas – forquilhas, enxadas, picaretas, foices – já estripavam os agressores, vingavam a morte d’ O Cantor e de todos os que assim morriam, como o Manuel; e até ele próprio, caso tivesse sido apanhado.

Por isso, voltou-se para trás, para aquele lugar sem nome; para o lugar onde a estrada acabava. E, animado da raiva da vingança, deu um passo naquela direção; só um… Deu esse passo, um passo interrompido pelos tiros que se começaram a ouvir e pela visão do que dele – vermelho vivo – se derramava.

Jacinta, rindo à gargalhada, invadiu a sua mente e ressoou dolorosa no seu peito, mas não eram as entranhas que dele escorriam e não fora a faca imaginária da Jacinta que o cortara; uma bala – uma maldita bala salazarista – acertara-lhe e ele esvaía-se, gota a gota, num fio pesado e peganhento.

A consciência foi-se diluindo num silêncio abafado. Já não sentiu o embate dos joelhos no chão, nem escutava o latir aflito do Júlio – uma mancha negra e difusa; tudo o que via eram as covas abertas na beira da estrada e tudo o que ouvia, enquanto o dia lhe ia anoitecendo, era a voz melodiosa da Jacinta, soprada pelo vento através dos canaviais, em sorrisos cristalinos, murmurando: «Fode-me!»

Quinto (e ultimo) Capitulo do conto, “O Dia em que a Estrada Acaba” – Capitulo I, II, III, IV e V.
Por: P. J. Vulter (Pseudónimo do escritor Paulo J Fonseca, autor das obra “Marta”)

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