Poesia

Eu, o único, o próprio

Alma angustiada, fria, cansada
Mente perturbada, confusa, esgotada
Vivendo cada dia sem motivação para nada
Sinto-me como um lobo solitário numa noite gelada

Procuro razão de vida, não encontro nada
Preso numa escuridão, comigo de mão dada
Se ainda restava alguma luz, esta já deve estar apagada
Tento ver algo positivo, mas devo ter a visão desfocada, ou por dor ofuscada

Faço piadas com tudo, quem me vê pensa que não ligo
Ajo com atitude como se nada mexesse comigo
Mas é o maior segredo que eu tenho escondido
Pois a mínima insegurança me consegue comer vivo

Os pensamentos aparecem do nada, e eu fico logo obsessivo
Tem de estar tudo do meu agrado, é que eu sou tão compulsivo
Sou tão impaciente e sou tão rigoroso comigo
Que se algo ficar minimamente mal, eu fico logo destruído

Preso no silêncio com uma mente inquieta
A cada passo que dou sinto-me mais longe da meta
Então fico no meu canto a ouvir a minha canção predileta
Com o coração desfeito, atingiu-me em cheio essa seta

Pena não ter sido a seta de um cupido
Ou uma seta de ambição que me deixasse enriquecido
Mas foi uma seta de desilusão que me deixou enfurecido
Que me desfez o coração e até está partido

Sinto-me perdido
Navego sem destino, num caminho frio e sombrio
E se outra seta vier em direção mim e eu for atingido
Talvez desta vez eu seja um alvo abatido

Completamente inseguro, de tudo desconfiado
Que em qualquer lugar que esteja, esteja a ser observado
Parece que tudo me acontece para me atingir de algum lado
Como se eu fosse o único humano e estivesse a ser controlado

E toda a gente me diz que posso ser ajudado
Mas como? ou quando? nada está a dar resultado
Talvez a única solução seja eu me manter afastado
Longe da multidão, num lugar isolado

E lá estou eu de novo sozinho, num lugar desabitado
Com medo de mim mesmo, a tentar não ser notado
Quieto e confuso, julgado e nunca amado
Triste e cansado, desesperado por me sentir culpado

O meu maior medo é que os meus pesadelos virem realidade
E eu tenha de enfrentar estes pensamentos com naturalidade
Que todos estes traumas que me dão desconfortabilidade
Acontecem realmente transformados em verdade

Por qualquer coisa irritado, sentindo-me um otário
Sem paciência, com um olhar solitário
Sem medo de fazer frente a qualquer adversário
Sabendo que a minha melhor arma é o meu vocabulário

Para me distrair às vezes, entretenho-me num jogo
Gosto de usar magias, poderes de gelo e fogo
Sentir me como um mago de vento, levantar o universo todo
Deixar cair com força e fazer tudo de novo aha

E a minha vida às vezes parece um jogo de xadrez
Não sei que peça sou mas avanço um passo de cada vez
E quando penso que é desta e que irei ganhar de vez
Fico preso num xeque-mate, game over, perdi-me outra vez

Sempre posto de parte, sofredor de bullying, ninguém me ama
Odiador e odiado, conhecido por má fama
Minha mente é um tornado, cada meu olho uma chama
Durmo num grande oceano, feito de lágrimas que derramei na cama

Ninguém me conhece de verdade, foi essa a conclusão a que cheguei
Sim cometi erros, mas admiti quando errei
Mas se soubessem o que eu passo e aquilo que eu passei
Calavam a vossa boca se soubessem o que eu sei

E provavelmente morreriam se soubessem o que estou a pensar
Desastre, sofrimento, mil e uma formas de me matar
Pensamentos tão lunáticos que nem os consigo contar
Tão controverso comigo mesmo não consigo parar de me julgar

Desgaste, obsessão, frieza no olhar
Ansiedade, depressão, mais nem vos vou contar
Acreditem que eu não sou aquilo que de mim ouvem falar
Mudavam logo a vossa opinião se soubessem o que estou a passar

Só queria a minha estabilidade e de ultrapassar tudo eu ser capaz
Mas como irei conseguir calma se nem em casa eu tenho paz
Confusões me perseguem, de mim andam atrás
Estou quase a bater no fundo, preso como em Alcatraz

Meu pensamento consome-me, pela mínima coisa obsessivo
Começo a ficar nervoso outra vez, tomo mais um comprimido
Todos dizem para mudar e ter mais cuidado comigo
Mas não aguentavam nem 1 hora presos neste mundo que eu vivo

Um mundo à parte de angústia, sombrio e controverso
Um mundo de loucura, de tortura, um mundo inverso
Cada dor e cada falha, escrita em cada verso
Um mundo no fundo do poço de escuridão imerso

Um mundo sangrento, onde se matam as fadas
Um mundo de demónios e almas assombradas
Um mundo onde o amor é dado em traição e facadas
Um mundo tão confuso e complexo feito em palavras cruzadas

E cada que me olho ao espelho, sinto-me mais irreconhecível
Não sei se já deu game over ou estou a avançar de nível
Ando por uma estrada infinita com réstias de combustível
Fascinado com as mais modestas coisas, como o mundo consegue ser incrível

Já nem sei o que é estar apaixonado, não consigo ter uma relação
Espero conseguir encontre alguém que me volta a transmitir essa emoção
Que volte esse sentimento, de ternura e paixão
Ter alguém a meu lado a quem eu entrego o meu coração, e me ajude a curar as feridas a cantar a mesma canção

Mas por enquanto cá estou, sem dormir quase a entrar em exaustão
Tenho cortes na alma, mas ninguém entende a profundidade pois não
O meu pensamento dá me asas ou faz me bater diretamente no chão
Mas acho que ainda ninguém percebeu a gravidade da situação

Rimas com duplo sentido, cheio de cultura e influências
Livros mágicos, músicas puras, não só o que está nas tendências
Palavras caras, rimas sujas, são essas as minhas essências
Batalhas líricas, concertos no espelho, espetáculos sem audiências

Este sou eu, sempre cheio de preocupações, chega a ser esgotante
Triste e deprimido, de tal forma preocupante
Mínima coisa me irrita, chega a ser estressante
Tão difícil viver comigo, sou uma alma perdida ambulante

Por vezes sinto-me alegre e penso que estou a ir avante
De repente volto à estaca zero, talvez estivesse alucinante
Mudanças tão repentinas, algo tão angustiante
Não eu não sou bipolar, talvez apenas inconstante

Mas pronto, a vida vai passando e tento aproveitar cada instante
Coleções de tantas boas e más memórias que nem cabem numa estante
Continuo no meu caminho com pensamento confuso e ofegante
Na esperança que cada poema que escrevo o vento um dia cante

E com ele se levantem grandes ondas e marés
Que todas as folhas das árvores caiam a meus pés
Que me façam encontrar o meu propósito de uma vez
E que um pássaro me sussurre “É este quem tu és”

E que todo o mal desapareça nesse momento tão especial
Que ao som da música mais linda eu me sinta fenomenal
Que esse momento me mostre como é bom não ser normal
E que o mar engula toda esta crise existencial

E é por isto principalmente, que ouço música e escrevo letras
Seja onde eu estiver, em teclados ou com canetas
Nas folhas mais machucadas ou até nas maiores paletas
Que depois deixam marcas na minha alma como se fossem etiquetas

Rimo com qualquer batida, folhas espalhadas por gavetas
Na minha cabeça tudo é música, letras caem como cometas
Em vez de roupa tenho refrões, pendurados em cruzetas
Para me levarem a outras dimensões, ou viver em outros planetas

E é assim, os dois polos em que vivo
Por vezes quente de mais e outras vezes tão frio
Cheio de dúvidas e sinais, completamente dividido
Não entendo o porquê de ser tão obsessivo e compulsivo.

Por: João Bernardo Dias Vieira (aluno da Escola Secundaria D. Maria II, Braga)

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