Psicologia

Relações Familiares em tempos natalícios

O Natal está à porta e esta é uma época que automaticamente nos remete para sensações de felicidade e família. Nesta quadra é expectável que se deixe para trás todas as mágoas, tristeza e ansiedade e que mostremos uma imagem perfeita e feliz. Esta pressão que nos é colocada, seja por amigos/familiares ou pelos media, pode gerar profundos sentimentos de ansiedade, solidão e tristeza.

Sendo a família um dos pilares que impactam o nosso bem-estar, vamos então debruçar-nos sobre o significado da mesma. A família é descrita como um conjunto de pessoas (sistema) conectadas por laços afetivos (eg. sanguinidade, afinidade, adoção), valores, e que se mantêm na vida uns dos outros ao longo dos diferentes estádios de vida de cada um. Este conjunto de pessoas é o nosso primeiro agente de socialização, sendo através da qualidade destas primeiras relações que vamos desenvolver uma trajetória de desenvolvimento saudável ou nociva.  

Cada sistema familiar irá definir o seu modelo de relações onde são estipuladas as funções de cada membro e a forma como vão interagir entre si. Estes padrões incutidos na fase inicial de desenvolvimento englobam uma componente genética e uma componente contextual, originando padrões de comportamento que se poderão perpetuar ao longo de gerações. Os laços emocionais estabelecidos com as figuras cuidadoras e a perceção de um ambiente familiar seguro irá alavancar a construção da identidade do sujeito e promover a autonomia do mesmo. Tendo em mente a importância destas interações iniciais, é crucial que o sistema familiar compreenda as dificuldades inerentes ao seio familiar para que se possa passar de um estado de contemplação para um estado de ação que permita mudança. 

Não quero com isto dizer que não ocorram conflitos entre os membros de uma família, o conflito é, geralmente, perfeitamente normal e saudável, sendo que apenas demonstra que existem duas opiniões contrárias. Tendo isto em mente, o nosso foco não deve fixar-se no surgimento ou não de um conflito, mas sim na forma como os mesmos são encarados quando surgem (mantendo sempre o respeito pelo outro). Como exemplo, durante a pandemia e confinamento ocorreram com certeza alguns conflitos, pois deparámo-nos com um cenário em que todos os membros da família estão no mesmo espaço 24h sobre 24h, criando oportunidades para tensão e ferimento de suscetibilidades. No entanto, tal como estes momentos podem promover atritos, podem também ser um convite para criar momentos de reconciliação.

Estas falhas de comunicação, de conexão e de sintonia ocorrem centenas de vezes durante o dia e milhões de vezes num ano, sendo cruciais para criar indivíduos resilientes com capacidade de autorregulação e mecanismos de coping. Deste modo, dado que os conflitos são inevitáveis e necessários, o que precisamos de fazer para manter relacionamentos importantes é melhorar a nossa capacidade de nos ressincronizar e de estarmos atentos e disponíveis para reparar eventuais ruturas. O esforço que colocamos numa reparação simboliza o valor que este relacionamento tem para nós.

Na época festiva, é comum que se estenda o tempo de interação com a família e, tal como durante o confinamento, que exista uma maior chance para a existência de desentendimentos entre os membros da família. Os fatores mais comuns prendem-se habitualmente com a gestão de tempo, dificuldades financeiras, distância geográfica ou afetiva, diferentes ideais ou expectativas, processo de luto, introdução de novos elementos e novas tradições no sistema familiar e retrospetivas inerentes a objetivos não atingidos.

Existem, no entanto, algumas estratégias que podem prevenir ou ajudar a reparar alguns destes conflitos criando uma relação autêntica e saudável com todos os membros do sistema, sendo estas:

  • Definir um valor máximo para despesas referentes ao Natal;
  • Realizar as compras necessárias com antecedência;
  • Manter o contacto, fora da época festiva, com os entes queridos via mensagem, chamada telefónica ou videochamada;
  • Se aplicável, enviar os presentes com antecedência para se sentir mais perto da sua família no dia de Natal;
  • Fazer planos de Natal caso esteja longe de casa (e.g. com amigos, a fazer voluntariado, com outras pessoas que estão longe da família);
  • Reaproximar-se e tentar reconciliar-se com a sua família (use a força dos seus sentimentos para dar este passo ou para alargar a sua rede de suporte);
  • Criar expectativas realistas (conflitos entre membros da família são naturais e prováveis de acontecer);
  • Acolher os sentimentos de cada membro da família e permitir que possam partilhar o que estão a sentir (e.g. stress, ansiedade, cansaço, tristeza, saudade);
  • Caso seja necessário, dividir o Natal em dois momentos, prevenindo possíveis conflitos (eg. Divórcios, separações, incompatibilidades);
  • Planear atividades em grupo (promovendo um clima relaxante e livre de stress);
  • Evitar consumos excessivos de álcool;
  • Planear o Natal em família de forma a conciliar tradições e a que todos se sintam incluídos;
  • Construir uma lista de conquistas e criar resoluções para o novo ano que sejam positivas e alcançáveis;
  • Reconhecer o erro/ofensa (desligue os seus mecanismos de defesa, não importa se não foi propositado ou se existiu uma razão, tente compreender a dor que causou no outro e ouça a outra pessoa de coração aberto. Qualquer tentativa de diminuir ou desvalorizar o impacto do nosso comportamento, só irá minar o relacionamento e tornar a reparação menos autêntica);
  • Demonstrar arrependimento (um simples “Desculpa” é suficiente, o foco do pedido de desculpa deve estar na pessoa magoada e, por vezes, ao tentar justificar em demasia acabamos por colocar o foco em nós – considere facultar uma explicação simples se sentir abertura por parte da outra pessoa para ouvir, pode acrescentar uma pequena explicação, não iniciando um processo de dores próprias, este não é o momento);
  • Demonstre a sua intenção de reparar e não repetir a situação (este é um processo em constante desenvolvimento, permita-se perdoar-se também a si).

Para que seja possível cultivarmos boas relações familiares, é necessário que exista uma boa comunicação verbal (abertura para abordar qualquer tipo de tema sem crítica e julgamento, inclusive os difíceis, promove a competência de resolução de problemas e tomada de decisão) e não verbal (pequenos gestos como por exemplo, demonstrar carinho através de um abraço ou beijo antes de deitar) entre todos os membros. É fundamental que as relações tenham como base o exemplo e que sejam valorizadas as forças e necessidades de cada membro (foco no bem-estar de todos), que se percecionem as crises como uma oportunidade de aprendizagem (promovendo a resiliência e o perdão) e, acima de tudo, que se desfrute do sentimento de pertença a um grupo com quem partilhamos valores e princípios, respeitando sempre os limites de cada um. A promoção de sentimentos de amor e segurança nos seus membros é dos principais aspetos para a construção de um ambiente de carinho e cuidado que, por sua vez, permite criar futuros adultos equilibrados, felizes e bem-sucedidos.

Por: Micaela Gonçalves (Psicóloga Clínica na Academia Transformar)


Obra por: Joseph Farquharson, The Shortening Winter’s Day is near a Close

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