Filosofia

Tempo

O pesar involuntário extraído ao tilintar dos ponteiros, tomando-o por nossa posse – uma imodéstia às vozes de quem o conta.

Reconhecer-se a sua necessidade, convictos de que é ainda, e indeterminadamente, um pertence ao ego que nos circunda, é o atear de um conflito em recusa: o (falsamente denominado) altruísmo do ser humano, incapaz de abdicar do suporte que mede o seu peso – uma agonia auto imposta.

Permitir que o vejamos como um algo maleável é uma trapaça mal disfarçada à mente; um disparo incessante da mortalidade que juramos não segurar – mas nunca fora do nosso conhecimento ou alcance -, tendo como único alvo certeiro (e ainda que não mirado) a chance de olhar por cima a quem nos roubou o tempo: o ser-se do nosso subconsciente que, na sua imprudência por temer que nos escapasse, fê-lo ficar parado; porém, encontrava-se ele, contínua e aparentemente veloz à alma que não vê, avançando até à finda da espiral em que embate.

Notamos tudo e o todo como uma incerteza irreparável, e adotamos tal aparência que nos toca a vista como efúgio à mágoa que transmitimos – e eventualmente, sentimos. Trespassaram-me momentos, que outrora haviam à espera em mim, por ter tido a audácia e o egoísmo de os etiquetar como certos, quer concretizados num futuro não muito distante, ou num outro longínquo – o que melhor cabia à minha definição de tempo.

Perseguir algo que tão brutamente abandonamos é o passo em falso numa corrida que não permite voltar atrás, e nem tanto ser interrompida; a ânsia de agarrar algo que se desprende de nós.

Não olhamos ao juízo ou igualmente ao apaziguamento; não construímos o canto escuro em que deciframos a mente tão mal encaixada; e não prezamos o que nos resta nem o que nos deixamos restar.

A moldagem do tempo é insolúvel nas águas que nos correm – e é nesse entretanto de tentativas que esquecemos o seu fim. Porque quando a ruína se nos entranha, ele está lá: limitado a passar.

Por: Maria Martins (Aluna do Secundário)


Obra por, Caspar David Friedrich, “Moonrise over the Sea [Mondaufgang über dem Meer]

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