Portugal

Uma Homenagem a Portugal

Primeiro estabelecido por D. Luís I, em 1880, como Dia de Festa Nacional e de Grande Gala, em comemoração dos trezentos anos da morte de Luís de Camões, o dia 10 de junho – designado como, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas – revela-se importante e é com esta importância em mente que duas professoras da E. S. D. Maria II escreveram um texto para o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Educação Literária e a vontade de Ler:

Ao longo de 12 anos de escolaridade obrigatória, o universo dos alunos portugueses é introduzido num mundo de fantasia e ficção que permite conhecer ambientes, espaços, situações e personagens fantásticas que se revelam únicos e, ao mesmo tempo, semelhantes a todas as histórias e estórias de cada um.

Desde tenra idade, sonhamos com fadas, animamos rapazes de bronze, viajamos até à Palestina, visitando lugares santos e regressamos, percorrendo as belas cidades da Europa até à Dinamarca, ajudamos um Gato Grande Preto e Gordo a salvar uma gaivotinha, ensinando-a a voar, escondemo-nos silenciosamente num anexo, para não sermos descobertos pelas tropas alemãs nazis, viajamos para desbravar mares e territórios, espalhando o amor da Citereia e emocionamo-nos com as (in)definições do Amor!

Mais tarde, já no secundário, espantamo-nos com as cantigas do rei trovador “Ai Deus e o é?” e com raparigas que tentam casar para fugir de uma situação de vigilância maternal para caírem em casamentos opressivos e castradores de vontades e liberdades individuais! Nesta fase, conseguimos perceber que há em todas as obras um forte pendor de crítica social que nos diz que houve sempre autores a fazerem chamadas de atenção para a correção de costumes e comportamentos que revelam incultura e desprovidos de honra e lisura nacionais. Demos um salto até S. Luís do Maranhão, para ouvir o Padre António Vieira pregar aos peixes, apontando-lhes virtudes e defeitos “Uma coisa que me desedifica em vós é que vos comeis uns aos outros… e os grandes comem os pequenos”… quanta atualidade nesta metáfora!  De seguida, angustiamo-nos com tragédia que se abate sobre os Noronha e Coutinho, ficando incrédulos com a morte da valente Maria que, aos olhos de hoje, provavelmente teria outro destino… ou talvez não?! De amor em amor e de proibição em proibição, emocionamo-nos com Simão e Teresa… quem consegue ficar indiferente aos braços estendidos mo Mirante que se despedem do seu amado para sempre? Como não verter uma lágrima ao sentirmos as ondas a envolverem Mariana na sua morada final e abraçada ao seu amor?!

Quando esperávamos ter sossego ao nível das emoções, eis que nos deparamos com uma narrativa que nos espanta com o seu tom de extremo sarcasmo para com os comportamentos da sociedade lisboeta e com as peripécias do Destino que coloca sob o mesmo signo da desgraça dois irmãos que se atraem inexorável e fatalmente… “Falhamos a vida, menino!” – é a frase que resume todos os sonhos de renovação literária, política, económica e social do último quartel do século XX.

Ao longo dos 12 anos, somos confrontados com a genialidade de quem consegue transpor em palavras sentimentos e emoções que exortam as mentes à renovação, reformulação e mudança, de forma sublime e em estilo “grandíloquo”. Como não mostrar espanto e maravilhamento perante a multiplicidade de personagens (Heteronímia) de Fernando Pessoa que nos leva à infância como tempo privilegiado da inconsciência e felicidade, ou a não fazer nada, porque inexoravelmente caminhamos para a morte, ou ainda, experimentar tudo de todas as maneiras para se atingir a felicidade? E que dizer da Mensagem que nos exorta a sairmos do nosso sofá para transformarmos a nossa realidade? Façamos a irmandade que revolucionará mentalidades e fará surgir o Quinto Império da libertação individual, no respeito por todos e pelo planeta!

Em suma, a construção de um cidadão implica necessariamente a construção de uma mente culta e votada para os valores universais da liberdade, igualdade e fraternidade empenhadas e reveladoras de um mundo novo – este desígnio é conseguido através do conhecimento e leitura dos testemunhos de grandeza e genialidade que absorvemos de todas as obras literárias que temos o privilégio de folhear!

Valete Frates!!!!


Artigo (Educação Literária e a vontade de Ler), escrito por Anabela Maria Ameixinha (Professora de Português da E. S. D. Maria II)

Eduardo Lourenço um filósofo português:

Eduardo Lourenço Faria nasceu em 23 de maio de 1923, em S. Pedro do Rio Seco, no concelho de Almeida, na Beira Alta. O mais velho de sete irmãos e filho de um militar do exército, frequentou a escola primária da aldeia onde nasceu e matriculou-se, posteriormente, no Colégio Militar, em Lisboa, onde concluiu o curso em 1940.Frequentou o curso de Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde foi depois professor assistente. Emigrou para França em 1949, ano em que é publicado o seu livro de estreia, Heterodoxia I.

Foi leitor de Língua e Cultura Portuguesa nas Universidades de Hamburgo e Heidelberg, na Alemanha, e Montpellier, em França, depois professor de Filosofia na Universidade Federal da Bahia, no Brasil. Também foi leitor a cargo do Governo francês nas Universidades de Grenoble e de Nice.

Entre as várias distinções que Eduardo Lourenço recebeu, estão o Prémio Casa da Imprensa (1974), o Prémio Jacinto do Prado Coelho (1986), o Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon (1988), o Prémio Camões (1996), o Prémio Pessoa (2011), e o Prix du Rayonnement de la Langue et de la Littérature Françaises da Academia Francesa (2016). Em França, recebeu também a condecoração de Officier de l’Ordre de Mérite, Chevalier de L’Ordre des Arts et des Lettres; em Espanha, a Encomienda de Numero de la Orden del Mérito Civil. Em Portugal, era Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, de que também possuía a Grã-Cruz, assim como da Ordem do Infante D. Henrique e da Ordem da Liberdade. Era também Oficial da Ordem Nacional do Mérito, Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras e da Legião de Honra de França.

Em 2018, foi protagonista e narrador da sua própria história, num filme de Miguel Gonçalves Mendes, que teve antestreia a 23 de maio, dia em que Eduardo Lourenço completou 95 anos. Intitulado O Labirinto da Saudade, o filme adapta a obra homónima de Lourenço e traça uma viagem através da cabeça do pensador, constituindo-se como uma “homenagem em vida” do realizador ao ensaísta.

Faleceu a 1 de dezembro de 2020 em Lisboa

Treze citações filosóficas, de Eduardo Lourenço, sobre Portugal, cultura, língua e comunidades

Portugal:

“Poucos povos serão como o nosso tão intimamente quixotescos, quer dizer, tão indistintamente Quixote e Sancho. Quando se sonharam sonhos maiores do que nós, mesmo a parte de Sancho que nos enraíza na realidade está sempre pronta a tomar os moinhos por gigantes. A nossa última aventura quixotesca tirou-nos a venda dos olhos, e a nossa imagem é hoje mais serena e mais harmoniosa que noutras épocas de desvairo o pôde ser. Mas não nos muda os sonhos.” ‘Nós e a Europa ou as Duas Razões’, 1988

“Os portugueses ainda vivem com um excesso de passado. Sobretudo com essa espécie de fixação histórica, que pode ser de tipo erótico ou outra, temos a nossa fixação sobre o nosso período áureo. Estamos eternamente no século XVI, estamos eternamente navegando para a Índia. Porque foi aquilo que fizemos enquanto povo de mais extraordinário, aí deixámos a nossa marca na história do mundo.” ‘Entre Nós’, Universidade Aberta, 2002

“A história de Portugal é, de facto, singular. Os portugueses foram para todo o lado, mas nunca saíram, levaram a casinha com eles. Fizeram a mesma coisa na Europa. Salvo uma elite, que se preocupava com o que se passava lá fora – e imitava ou recusava -, a todos os outros foi a Europa que lhes chegou: veio por aí abaixo com os caminhos-de-ferro.” Público, 2007

“Portugal não é uma ilha, mas vive como se fosse. Talvez por uma determinação de quase autodefesa. O que me admira mais não é a preocupação constante que temos em saber qual é a figura que fazemos no mundo enquanto portugueses. Todos os países terão à sua maneira essa preocupação. É o excesso dessa paixão. É preciso que não estejamos sempre a viver um Ronaldo coletivo, um “nós somos o melhor do mundo”. “O narcisismo português, para mim, é um narcisismo inocente; ninguém pensa que vai morrer no espelho. Mas às vezes acontece.” Público, 2017

Lingua:

“A nossa identidade é-nos dada pela língua. O resto é identidade humana, normal, genérica. A identidade no sentido em que a tomamos, como qualquer coisa de particular, uma voz que é só nossa, que escutamos, é dada pela língua. Em segunda instância pela escrita, pela memória escrita. Uma cultura é uma memória, qualquer coisa que se está sempre a reciclar dentro do mesmo.”DNa, Diário de Notícias, 2003

Cultura:

“Vemos a nossa cultura como um museu e a do outro como uma coisa viva.” Público, 2001

“A cultura serve para nos despir de toda a arrogância, particularmente essa que consiste em imaginar que, sendo cultivados, encontramos Deus. A cultura é um exercício de desestruturação, não de acumulação de coisas. É uma constante relativização do nosso desejo, legítimo, de estar em contacto com aquilo que é verdadeiro, belo, bom. É esse exercício de desconfiança, masoquista, de desencantamento. Só para que não caiamos no único pecado, que é verdadeiramente o pecado contra o espírito: o orgulho.” DNa, Diário de Notícias, 2003

Artes:

“Somos pessoas racionais, animais racionais, se bem que a nossa animalidade seja discutível. Porém, os artistas não criam em função da razão ou do bom senso. Criam em função de um estímulo de qualquer coisa, que os ofusca e interroga. E, se tem uma tradução imagética, essa tradução é a primeira manifestação de arte propriamente dita. A essência da arte é a mimesis. Estamos cercados de objetos e tentamos perceber de que é que eles nos falam. Com exceção da música, as artes são imitativas e nasceram de uma cópia da própria natureza.” Expresso, 2017

“A literatura não tem uma função. É um efeito do que somos de mais misterioso, de mais enigmático e ao mesmo tempo de mais ambicioso. Penso que, de todas as artes, a que revela o que a Humanidade é de mais profundo e absoluto é a música. A literatura é uma música um tom abaixo. Não se explica, não é da ordem do conceito como a filosofia. É natural que os homens reservem à literatura a sua maior atenção. A literatura é o nosso discurso fantasmático, absoluto. Todas as culturas se definem pela relação com o seu próprio imaginário. A encarnação dele é a literatura.” Público, 2017

Pensamento:

“O desejo de conhecimento é o que define o homem, desde Aristóteles. Somos aquele que deseja conhecer, deseja conhecer tudo, deseja conhecer sem fim. Os gregos foram os primeiros a falar dessa libido, desse tonel que nunca seria preenchido, que a sabedoria máxima era ter o conhecimento do que não se sabe.” DNa, Diário de Notícias, 2003

“Pensar é um diálogo que temos connosco próprios.” Expresso, 2017

Vida:

“A própria vida produz sentido sem nos pedir explicações. Não há uma determinação e um projeto concertado de atingir um tal fim ou tal objetivo, ou ter aquilo a que se costuma chamar de carreira, de correr para uma meta específica. Tenho vivido deixando-me surpreender.” Entre Nós”, Universidade Aberta, 2002

“Em geral, nós somos o discurso dos outros. Nós, por nós próprios, não temos discurso. Não devemos ter. Mas mesmo que quiséssemos ter também não tínhamos. Agora, cada um, no seu relacionamento com o outro tem uma imagem. Culturalmente, no domínio da imagem pública, sou um ensaísta. E já estou crucificado nessa maravilhosa cruz.”…”O que mais me surpreende nos outros: a autenticidade. Cada pessoa é um mundo. Mesmo as pessoas que têm momentos de menos visibilidade e relevo, as pessoas são um mistério a que nunca daremos a volta. “Podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”, Expresso, 2016


Artigo (Eduardo Lourenço um filósofo português), escrito por Rosa Maria Ferreira (Professora de Filosofia da E. S. D. Maria II)


Imagem por António da Silva Porto, A Volta do mercado

Introdução do artigo escrito por: Pedro Manuel Amaral (aluno da E. S. D. Maria II)