Ambiente

O Vício das Dunas

Afonso Cruz tem uma obra chamada O Vício dos Livros. Também padeço deste mal, mas tenho outro bem mais invulgar: o vício das dunas. Há muitos anos comecei a colecionar notícias sobre dunas. “Para quê?” – perguntarão. Porque um dia quero contar a sua história. “Dunas?! Que interesse pode ter uma história sobre uma paisagem tão árida e inconstante como a das dunas?” – quererão saber os leitores. “As dunas são montes de areia.” – dirão – “Como podem ter uma história?”. Bem, um dos fascínios das dunas é exatamente esse: o efeito-surpresa! O que escondem esses amontoados de areia e o que dizem sobre nós!… Além disso, falar em histórias de dunas é geralmente o suficiente para manter a audiência atenta. É o princípio de tudo!

Antes de começar, um aviso, as histórias que conto não são ficção. Sou historiadora, isso obriga a que as minhas narrativas, mesmo aquelas sobre coisas estranhas, como as dunas, tenham de ser verídicas.

Duna da Cresmina, Cascais, 2021

Sou historiadora ambiental. “E isso é ser o quê?”. É a pergunta que surge imediatamente, sempre que faço esta afirmação. A História Ambiental é uma especialidade ou campo da História que se interessa pela forma como os seres humanos se relacionam com o mundo natural no tempo e no espaço. Eu explico! A História tem habitualmente como foco as sociedades humanas, abordando temas relacionados com a política, as instituições, o direito, a economia, a tecnologia, a ciência, a cultura, a literatura, etc. Há obviamente referências à natureza, mas esta é geralmente tratada como cenário ou palco das atividades humanas. A História Ambiental dá-lhe outro relevo, entendendo os elementos naturais como forças ativas e formativas da história humana, isto é, como personagens da própria trama histórica. No meu caso, as dunas são as protagonistas das narrativas que escrevo.

“O que é que se estuda em História Ambiental?”. Outra questão frequente. Em linhas gerais, a História Ambiental interessa-se por três grandes temáticas que se entrecruzam: 1) saber qual a influência dos fatores ambientais na história humana; 2) estudar as alterações ambientais provocadas pelas ações humanas e a forma como essas modificações têm impactos nas sociedades; 3) analisar a história do pensamento sobre a natureza e o modo como diferentes perceções e atitudes influenciam práticas que afetam o ambiente. Sou coordenadora de um projeto chamado DUNES (http://dunes.letras.ulisboa.pt/). Os meus estudos sobre as dunas misturam estas três linhas. Vejamos como.

Primeiro, procuro perceber como as dunas em movimento afetaram as populações que viviam junto ao litoral. Sim, porque as dunas podem deslocar-se empurradas pelos ventos e cobrir de areia campos agrícolas, povoações, estradas e quase tudo o que encontram pelo caminho. Há inúmeras histórias em Portugal e pela Europa fora de lugares desaparecidos, escondidos pelas dunas, desde a Idade Média. “Ah!” – poderão dizer – “Isso foi há muito tempo!” Nem por isso!  Espreitem aqui: https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2021/07/12/entenda-o-avanco-das-dunas-em-florianopolis-que-causou-a-interdicao-de-casas.ghtml.

Nos séculos XVIII e XIX, as dunas eram uma ameaça real para muitas comunidades e, por isso mesmo, temidas. Sabendo que elas engoliam tudo, não admira. Mas o que causava este fenómeno? Os cientistas explicam que a mobilidade das dunas está relacionada com fatores climáticos. A investigação arqueológica e histórica mostra que as atividades humanas também tiveram algum papel nisto. A intensificação da agricultura, da desflorestação, do pastoreio, favoreceu a erosão dos solos e contribuiu para o aumento das areias que chegavam ao litoral (as areias das praias são provenientes do continente e chegam ao mar através dos rios!). A progressiva destruição da vegetação que crescia nas dunas também determinou a sua mobilidade. Estou a falar então de alterações ambientais provocação por ação humana e suas consequências para as sociedades, a segunda linha de investigação. Quando as dunas se tornaram um problema, houve, claro, inúmeros esforços para o resolver. O que se mostrou mais eficaz foi a sua arborização! Após várias tentativas, percebeu-se que podiam ser fixadas através da plantação de certas espécies, como o estorno e o pinheiro. As dunas eram perigosas e inúteis, transformá-las em florestas, capazes de dar rendimento, pareceu uma boa ideia. A florestação das dunas a grande escala começou em França, no início do século XIX, e foi adotada em vários países, incluindo Portugal. Os efeitos são ainda visíveis nos dias de hoje, as Matas Litorais nacionais, ao longo da costa portuguesa ocidental, são o resultado destas ações.

Praia da Maceda e o pinhal nas dunas, 2016.

A tentativa de fixação das dunas na Europa e em outros países do mundo, onde os europeus se instalaram, criou alguns problemas ambientais que estão por resolver. O que nos leva ao terceiro tema, “a história do pensamento e das diferentes perceções sobre a natureza”. Como se passa das dunas inúteis e perigosas para a ideia presente de que as dunas são um património natural muito importante do ponto de vista ecossistémico e enquanto barreiras contra a subida do nível do mar? Isto tem a ver com o desenvolvimento do conhecimento científico sobre o funcionamento dos sistemas costeiros e do papel das dunas na dinâmica das praias. Este vídeo ajuda a perceber isso: https://www.npr.org/2013/02/15/170459890/after-sandy-not-all-sand-dunes-are-created-equal?t=1555508304788&t=1625570398019&t=1636104320389&t=1637489130750. Revela também que as ideias mudam! A palavra “duna” nos séculos XIX e XXI designa exatamente o mesmo montão de areia, o seu significado, porém, ou o valor que lhe está associado, é distinto. Uma duna antes era algo sem proveito, a eliminar, a fazer desaparecer. Uma duna hoje é um ecossistema protegido pela legislação, apreciado do ponto de vista estético e recreativo, que se procura manter e reabilitar. Esta mudança de paradigma e o que lhe está subjacente é história. Diz muito sobre as sociedades humanas, a forma como mudam de opinião sobre o mundo que as rodeia e porque o fazem. Compreender isto, que as ideias se alteram e que as ideias e a sua variabilidade moldam o mundo, é fundamental para pensar o futuro.

A História Ambiental tem as suas especificidades, ou seja, aquilo que a torna distinta! É, em geral, interdisciplinar. Trabalhar sobre ambientes e sistemas naturais implica saber como funcionam e, por conseguinte, ter noções (ainda que básicas) sobre geologia, geomorfologia, química, biologia, geografia, etc. Melhor ainda é trabalhar em colaboração com cientistas e ter acesso a todo um conjunto de ferramentas conceptuais, métodos e dados que os historiadores habitualmente não utilizam. Para poder falar sobre as dunas tive de aprender que função têm, como se formam, qual a relevância das correntes, ventos, marés, a importância do tamanho dos grãos de areia, de onde vêm, como se deslocam e porque são fundamentais certas plantas para fixar a areia! Coisas giras que não se aprendem nos livros de história, mas fazem parte dos compêndios de geografia, geologia ou biologia. As questões ambientais são, aliás, tão transversais às diferentes áreas do conhecimento que nem todos os que fazem história ambiental são historiadores. Há quem tenha começado o seu percurso académico nas ciências e perceba que a informação contida nos arquivos e a interpretação histórica podem fornecer outras respostas para os problemas que estudam.

A História Ambiental tem também uma forte dimensão internacional ou global. Os sistemas naturais não reconhecem fronteiras políticas. Ainda que a História Ambiental tenha com frequência enfoque num caso específico, local ou regional, é fácil passar depois para um plano transnacional, estabelecendo comparações com outros sistemas, noutras partes do mundo. Os meus estudos sobre dunas começaram por ser centrados no litoral português até descobrir que havia questões semelhantes noutros países da Europa e que a emigração europeia tinha desencadeado um conjunto de fenómenos relacionados com as dunas noutros continentes. Percebi, por exemplo, que as dunas de Portugal têm pontos em comum com as dunas da Nova Zelândia. Não falo de serem todas montes de areia, mas sim de haver questões políticas, económicas e sociais que são parecidas. Compreender e explicar estas interligações é fazer história.

Reabilitação das dunas da Praia de S. João, Costa da Caparica, 2020.

“Como se faz História Ambiental? Que fontes se usam?” – perguntam-me os alunos. Para quem não sabe, as fontes em história são os testemunhos do passado – documentos, mapas, fotografias – que permitem aos historiadores extrair informação sobre o seu objeto de estudo. Para estudar as dunas analiso registos paroquiais, legislação, discursos parlamentares, jornais, narrativas de viagem, memórias, correspondência privada e institucional, relatórios de militares, engenheiros e silvicultores, literatura. Consulto mapas, observo postais e fotografias de praias. Estas fontes não são diferentes das que utilizaria se fizesse história política, económica ou da ciência. A diferença está no que procuro extrair destas fontes: informação sobre areia, dunas, praias, inundações, erosão. Contudo, isto não é suficiente. O contexto ecológico tem de fazer sentido, ou seja, é necessário saber como funcionavam os sistemas naturais, como eram as paisagens, no tempo e espaço que descrevo. Isso significa que há um trabalho adicional a fazer, é preciso ter em conta os estudos científicos e ter noções básicas do funcionamento dos sistemas. Idealmente, trabalho em equipa, chamo outros, de outras áreas do conhecimento, para fazer o que ainda não é frequente em História, escrever histórias em co-autoria, sendo que cada autor contribui com o seu conhecimento específico, para construir narrativas que extravasam a soma das partes. Por fim, há outra questão importante, como bem lembra José Augusto Pádua, colega brasileiro, é necessário evitar o anacronismo (todos os historiadores têm esta máxima!). É essencial evitar que os indivíduos do passado não sejam julgados em função de categorias modernas como a ecologia, sustentabilidade e os impactos antrópicos. Acreditem que não é tarefa simples. É muito fácil julgar os outros quando se sabe o que eles não sabiam: as consequências das suas ações!

Quase a terminar esta apresentação sobre o que é a História Ambiental, tratarei de explicar a sua relevância. Partindo da minha experiência como historiadora de dunas, a principal objeção que os colegas das Ciências fazem ao trabalho desenvolvido nas Humanidades tem a ver com o tipo de dados que utilizamos. Eles trabalham com números e dados concretos, as nossas informações são qualitativas, subjetivas e, por conseguinte, aos seus olhos, menos fiáveis. Ora, há espaço para tudo e a junção dos diferentes dados é o que permite a expansão do conhecimento. Quando analisamos um mesmo tema ou sistema, o litoral, por exemplo, os historiadores não vão fornecer informação sobre as correntes marítimas, o tipo de ondas, a velocidade do vento ou a taxa de erosão. O nosso contributo é outro. Assim, numa praia onde foi construído um esporão, os cientistas vão procurar saber qual o impacto daquela obra, como é que afeta o ecossistema. Os historiadores, por seu turno, explicam porque foi construído, quem o construiu, com que intuito (as intenções são frequentemente bem distintas dos efeitos práticos), se havia outras opções e porque foi escolhida uma e não outra. Isto permite perceber que há geralmente um conjunto de possibilidades e que a decisão final muitas vezes nada tem a ver com fenómenos naturais ou mensuráveis, mas se alinha com o enquadramento político, económico ou cultural. Esta decisão representa um caminho escolhido, não uma inevitabilidade. O valor das ciências sociais e humanas está na capacidade de reconhecimento da pluralidade e na identificação das possibilidades e dos contextos que determinam as escolhas.

Num mundo que é cada vez mais científico e tecnológico ainda há aspetos que não são totalmente apreendidos por fórmulas matemáticas e modelos computacionais. A maior incerteza no campo do conhecimento científico prende-se com os valores humanos e culturais. Estes são as variáveis imprevisíveis dos modelos que ditam o nosso futuro com as suas previsões. Os seres humanos tornaram-se uma força de transformação do planeta e dos seus sistemas, o que significa que as nossas perceções, atitudes, comportamentos e práticas têm de ser conhecidos e compreendidos. Este é o papel das Humanidades Ambientais, na qual se inclui a História Ambiental. As dunas, o meu vício, são a ferramenta que uso para observar e pensar criticamente aquilo a que se chama o Antropocénico ou a Idade dos Humanos.

Por: Joana Gaspar de Freitas (Coordenadora do Projeto DUNES. Sea, Sand, People, financiado pelo European Research Council (ERC). Investigadora do Centro de História da Universidade de Lisboa)


Imagens exibidas são da autoria da Joana Gaspar Freitas